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Home Colunas

BINÔMIO, UM PASQUIM MINEIRO

Por Ediel Ribeiro
3 de outubro de 2025 - 07:27
em Colunas

Reprodução. 

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Belo Horizonte – De passagem pela capital mineira, a caminho de Esmeraldas, onde fomos entrevistar amigos e familiares do cartunista Nani para a biografia que estou escrevendo, fomos, eu e a escritora Sheila Ferreira, tomar umas cervejas na Cantina do Lucas, no Edifício Maletta, em Belo Horizonte.

A Cantina do Lucas tem histórias. E muitas. Foi lá que ouvi falar pela primeira vez do jornal ‘Binômio’. Pudera, o jornalista Wander Piroli , um dos grandes nomes do jornal, batia ponto diariamente no ‘Lucas’, onde tomava suas cachaças favoritas.

O ‘Binômio’ foi um dos periódicos mais importantes — e mais ousados — da imprensa alternativa brasileira. O jornal circulou em Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais, entre 1952 e 1964 – ano do Golpe Militar – fundado por dois jovens jornalistas, José Maria Rabelo e Euro Arantes, estudante da UFMG, em 14 de abril de 1952.

Era um jornalzinho irreverente, satírico e combativo. Ficou famoso por seu humor ácido contra a ditadura e a política e os costumes da época. Publicava charges políticas, colunas satíricas e textos de humor que cutucavam tanto políticos mineiros quanto autoridades federais — um verdadeiro precursor do humor engajado, difundido, a partir de 1964, no Rio de Janeiro, pelo ‘Pasquim’.

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Caracterizava-se pela crítica política, humor e irreverência, apoiando diversas causas progressistas ao longo de sua trajetória. Revelou grandes nomes do jornalismo, do cartum e da literatura brasileira e foi assim definido por seus fundadores: “Uma brincadeira de estudante que a polícia resolveu levar a sério”.

O Binômio nasceu como um jornal estudantil, ligado ao Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito da UFMG. A ideia inicial era simples: ser um espaço para o humor político, a crítica social e a sátira de costumes. Mas a ousadia e a ironia rapidamente transformaram o projeto num fenômeno.

O nome “Binômio” era uma ironia direta ao lema do então governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek: “Energia e Transporte — o binômio do progresso”. O jornal adotou o termo para zombar das promessas políticas e do discurso desenvolvimentista, criando capas e manchetes debochadas que misturavam charges, textos curtos e humor ácido. “O Binômio da mentira era o de Juscelino. O nosso era o Binômio da verdade”, defende Rabelo.

A equipe era formada por jovens jornalistas, escritores e cartunistas que mais tarde se destacariam nacionalmente, como Ziraldo, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Guy Almeida, Henfil, Nani, Murilo Antunes, Fernando Gabeira, Borjalo, Wander Piroli e Roberto Drummond, entre outros.

“Fizemos um jornal pequeno no início, porque nós não tínhamos recurso, e apelamos para o humor, que depende do talento dos que o fazem”, explicou Rabelo.

O “Binômio” era caracterizado pelo deboche e pela contestação. No governo JK, as matérias abusavam do bom humor. Em uma delas, a manchete era “JK foi à Araxá e levou Rolla”, se referindo ao empresário Joaquim Rolla. Como Juscelino era bem-humorado e “boa-praça” nunca chegou a interferir no jornal. Já seu sucessor, Bias Fortes chegou a proibir todas as gráficas de Belo Horizonte de imprimir o Binômio. José Maria teve que ir ao Rio de Janeiro para rodar o jornal.

O semanário chegou a vender uma média de 60 mil exemplares por edição em uma Belo Horizonte de cerca de 200 mil habitantes. O sucesso e a irreverência também trouxeram problemas: o jornal sofreu processos, apreensões e pressões políticas. Com o golpe militar de 1964, a perseguição se intensificou, e José Maria Rabelo acabou preso e depois exilado. O Binômio perdeu fôlego, mas deixou um legado como precursor da imprensa alternativa e humorística no Brasil.

No auge do Golpe, José Maria Rabelo foi obrigado a sair do país vestindo uma batina de padre, por estar na mira dos militares. Passou pela Bolívia, Chile e França. Passou 16 anos no exílio. Quando retornou, recuperou a obra do Binômio graças à irmã, Terezinha Rabelo.

“A minha irmã teve a preocupação de esconder a coleção. Ela levou de caminhonete pra minha terra lá no Sul de Minas, em Campos Gerais, na casa dos meus pais. E a coleção ficou guardada lá, nos 16 anos em que eu estive no exílio. Nós estamos comemorando um fato que se deve a ela”, disse Rabelo.

Quatro décadas após o encerramento da publicação, os cadernos foram digitalizados pela Divisão de Coleções Especiais e Obras Raras e estão disponíveis em PDF no catálogo da Biblioteca Universitária da UFMG. Hoje, todas as 801 edições do “Binômio” podem ser acessadas pela internet. Os cadernos foram digitalizados pela Biblioteca da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e estão disponíveis no site da instituição.

Entre os cartunistas que colaboraram ou tiveram ligação com O Binômio, destacam-se: Henfil (Henrique de Souza Filho) – talvez o mais famoso, começou sua carreira no O Binômio nos anos 1960 antes de ir para O Pasquim; Lan (Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortellini Rossi) – embora mais conhecido por sua atuação em jornais cariocas (O Globo, O Pasquim), também colaborou com publicações mineiras, incluindo o O Binômio; Nani, Ernani Diniz Lucas (1949–2020) começou sua carreira no final dos anos 1960 em Belo Horizonte, justamente em O Binômio, antes de se projetar nacionalmente. Depois passou por diversos jornais e revistas importantes (O Pasquim, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, Estado de Minas, Playboy); Fraga (Eugênio Neves Fraga) – chargista mineiro, contribuiu com o humor político do jornal; Borjalo (Borja Lopes) – cartunista espanhol radicado no Brasil, ligado ao humor gráfico da época, colaborou pontualmente; Paulo Caruso e Chico Caruso (início de carreira) – tiveram participação 
esporádica, em edições especiais.

Durante a ditadura militar, o semanário foi perseguido e fechado em 1964.

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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