Um míssil inflável pedindo ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que realize um ataque nuclear contra o Brasil chamou atenção durante o ato de campanha de Flávio Bolsonaro (PL), realizado neste domingo (18), na Avenida Paulista, em São Paulo.
O objeto, carregado por apoiadores vestidos de verde e amarelo, trazia escrita em inglês a frase “Trump nuke Brazil”.
O verbo nuke, em inglês, é utilizado informalmente para designar um ataque com armas nucleares. A mensagem pode ser traduzida como “Trump, ataque o Brasil com armas nucleares”.
Fotos e vídeos mostram o inflável circulando entre os participantes do chamado “Bloco do 22”, manifestação convocada em apoio à candidatura de Flávio a uma semana do segundo turno das eleições.
O ato reuniu 71,9 mil pessoas no momento de maior concentração, às 12h20, segundo estimativa do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e da More in Common.
A metodologia tem margem de erro de 12%, o que coloca o público entre 63,3 mil e 80,5 mil participantes.
Patriotismo e pedido de ataque ao próprio país
A presença do míssil criou uma contradição evidente dentro de uma manifestação marcada pelo uso de símbolos nacionais e pelo discurso de defesa do Brasil.
Movimentos ligados ao bolsonarismo adotaram ao longo dos últimos anos a denominação de “patriotas”, com uso recorrente das cores verde e amarela, da bandeira nacional e de referências à defesa da pátria.
Na Paulista, entretanto, um grupo que utilizava esses mesmos símbolos carregava um pedido explícito para que o chefe de Estado de outro país utilizasse uma arma nuclear contra o Brasil.
A cena se torna ainda mais contraditória porque, antes do início dos discursos, a própria organização pediu aos participantes que recolhessem bandeiras de outros países.
“Hoje é a nação brasileira”, disse um integrante da organização pelo sistema de som ao solicitar a retirada das bandeiras estrangeiras.
Mesmo depois da orientação, registros fotográficos mostraram bandeiras dos Estados Unidos e de Israel entre os participantes, além do míssil com o pedido a Trump.
Um ataque nuclear não atingiria governo, partido ou candidato. Representaria uma agressão militar contra o território brasileiro, com consequências para a população, cidades, infraestrutura e meio ambiente.

“Trump nuke Brazil”.
A mensagem pode ser traduzida como “Trump, ataque o Brasil com armas nucleares”.
(Reprodução)
Constituição coloca soberania entre fundamentos do país
A mensagem também entra em choque direto com princípios fundamentais estabelecidos pela Constituição brasileira.
O artigo 1º define a soberania como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil.
Já o artigo 4º estabelece que o país deve conduzir suas relações internacionais com base na independência nacional, autodeterminação dos povos, não intervenção, defesa da paz e solução pacífica dos conflitos.
O Código Penal também possui um capítulo específico sobre crimes contra a soberania nacional. O artigo 359-I prevê pena de três a oito anos para quem negociar com governo ou grupo estrangeiro com a finalidade de provocar atos típicos de guerra contra o Brasil ou promover sua invasão.
A simples exibição de uma frase em uma manifestação não significa automaticamente que seus responsáveis tenham praticado esse crime, que exige outros elementos para sua configuração. O conteúdo da mensagem, porém, pede justamente o resultado que a legislação brasileira busca proteger: impedir que forças estrangeiras pratiquem atos de guerra contra o território nacional.
Flávio não repudiou mensagem durante ato
Flávio Bolsonaro chegou à manifestação por volta das 11h15 e discursou aos apoiadores.
Durante sua fala, afirmou que o Brasil estava “sem presidente”, fez ataques a Lula, disse que pretendia indicar quatro ministros ao Supremo Tribunal Federal contrários ao aborto e às drogas e prometeu que Jair Bolsonaro colocaria nele a faixa presidencial caso fosse eleito.
“Vocês verão Jair Messias Bolsonaro colocar a faixa de presidente da República no filho dele”, declarou.
Em nenhum momento de seu discurso Flávio fez referência pública ao míssil ou repudiou a mensagem pedindo um ataque nuclear ao Brasil.
Até a manhã desta segunda-feira (19), a campanha também não havia divulgado nota condenando o episódio.
Ato teve Tarcísio, Ricardo Nunes e Nikolas
O ato contou com a presença do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), do prefeito Ricardo Nunes (MDB), do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e de outras lideranças da direita.
Flávio afirmou durante o ato que pretendia confrontar Lula no debate realizado na noite de domingo.
“Vou falar com o coração e para cada um de vocês da família brasileira. O Brasil está sem presidente, mas é por pouco tempo, porque Flávio Bolsonaro está chegando”, declarou.
A manifestação teve trios elétricos, músicas de campanha, críticas ao Supremo Tribunal Federal, ao ministro Alexandre de Moraes e aos institutos de pesquisas eleitorais.
Reação ao míssil
A imagem do inflável provocou forte repercussão nas redes sociais.
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, classificou a cena como “inacreditável”.
A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) chamou o episódio de “escândalo”, enquanto Sâmia Bomfim (PSOL-SP) acusou os responsáveis de agir contra a soberania brasileira.
As críticas partiram de adversários políticos de Flávio. O fato objetivo, porém, permanece independente dessas manifestações: um grupo de apoiadores de um candidato à Presidência exibiu, em plena Avenida Paulista, um pedido para que uma potência estrangeira realize um ataque nuclear contra o próprio Brasil.
A cena também coloca sob questionamento o significado de “patriotismo” utilizado politicamente por esses grupos. Defender a soberania de um país e pedir que uma potência estrangeira bombardeie seu território são posições incompatíveis entre si.
O segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro será realizado no próximo domingo, 25 de outubro.


