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Home Colunas

As Áfricas que a Bahia canta

Por Lenin Novaes
22 de dezembro de 2022 - 07:43
em Colunas

Divulgação - 

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“Vista assim do alto/mais parece um céu no chão

Sei lá, em Mangueira a poesia fez um mar, se alastrou

É a beleza do lugar/Prá se entender, tem que se achar

Que a vida não é só isso que se vê

É um pouco mais/Que os olhos não conseguem perceber

As mãos não ousam tocar/E os pés recusam pisar

Sei lá não sei, sei lá não sei”

– Marineth, o samba “Sei lá Mangueira”, do Paulinho da Viola e Hermínio Belo de Carvalho, vem à memória sempre que escrevinho sobre a escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Recordo-me que Natalino do Nascimento, o Natal (ele tinha um braço só), contraventor do jogo-do-bicho e presidente da Portela, fazia questão de não esconder sua aversão à música. Desfilava o manual completo de palavrões ao reagir às provocações de que o samba era uma obra prima da música popular. Sua raiva era porque o Príncipe do Samba, portelense, exaltava a Mangueira.

– Athaliba, por enquanto, fecha esse baú de triste memória da história da escola de samba. Será que a Mangueira tem chance real de conquistar o título de campeã do Carnaval 2023 com o enredo As Áfricas que a Bahia canta, frente às adversárias com temas tão convincentes?

– Marineth, saiba, como dizia João Nogueira, “ninguém faz samba só porque prefere/força nenhuma do mundo interfere/sobre o poder da criação”. Dotado de inimitável genialidade musical, Paulinho da Viola criou outra obra prima: “Foi um rio que passou em minha vida”. Verdadeira declaração de amor à Portela, ignorando a estupidez do bicheiro. Bem, a escola verde e rosa, a 2ª colocada no ranking de campeãs do Carnaval do Rio de Janeiro, pode surpreender. O enredo é teste de fogo para os carnavalescos Guilherme Estevão e Annik Salmon. Eles tiveram a ajuda de Mauro Cordeiro na pesquisa do tema.

– Athaliba, como o trabalho deles é teste de fogo?

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– Marineth, um deles deixou a Unidos do Porto da Pedra e, o outro, a Império da Tijuca, em substituição ao Leandro Vieira, contratado pela Imperatriz Leopoldinense. A dupla, portanto, tem enorme desafio pela frente. Pode chegar ao céu ou mergulhar no inferno. A sinopse indica que os carnavalescos irão fazer um tour pela diversidade da cantoria dos africanos escravizados, antes da abolição. A contextualização abordará ações que desafiavam “toda perseguição, entoando cantares nativos, contando a saga daqueles que, infelizmente, sucumbiram pala escravidão”.

– Isso é interessante, Athaliba. Será que Guilherme e Annik conseguirão evitar o lugar comum sobre temas enfocando a Bahia, até então levados para desfiles no sambódromo?

– To be or not to be, thast’s the question, Marineth. A dupla sinaliza que “a festa era para a preta rainha em forma de cucumbis, trazendo, à frente, um cortejo de rotins, afugentando todo o mal que pudesse estar ali; o arauto negro anunciava a chegada da procissão, cavalarias faziam guarda e ‘barbeiros’ davam o ritmo com xequerés, caxambus e a marcação; fogos dos bengalas explodiam no céu, quando, de repente, o filho da rainha morria em meio a exibição; ela ordena ao feiticeiro que que seu filho reviva; na sua dança mágica, o menino ganha vida, ela lhe entrega tesouros em missangas para que o cortejo prossiga, o sagrado demonstra seu poder e a corte se unifica”.

– Athaliba, o desfile da Mangueira, com esse tema, pode sacudir o público no sambódromo.

– Marineth, agora tudo é diferente do tema Maria Bethânia: a menina dos olhos de Oyá, homenagem à cantora baiana que proporcionou à escola o 19º título, em 2016, quebrando jejum de 14 anos. O desafio dos carnavalescos será fazer com que os jurados e o publico tenham fácil compreensão do enredo, dentro do rígido regulamento. A Mangueira tem, entre componentes de alas, turistas que compram fantasias em shoppings, sem vínculo com a agremiação. O enredo, com título pequeno, traz na essência a pluralidade de sonoridades de tribos africanas que foram escravizadas na Bahia.

– Athaliba, a rainha de bateria da escola, Evelyn Bastos, é quase uma atração à parte, no desfile. Qual será a fantasia dela? Será que terá alguma representação do tema? Evelyn é filha de Valéria Bastos, que ocupou o posto de 1987 a 1989. Sabe todos os fundamentos do samba e muito mais. É formada em Educação Física e História. Ela pode ser musa/tema de música. Axé!

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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