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Home Colunas

Araceli: marco de injustiça

Por Lenin Novaes
31 de maio de 2023 - 14:40
em Colunas

Romance-reportagem de um dos mais brutais assassinatos infantil no Brasil.  (Divulgação)- 

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– Athaliba, meio século depois, prescrito em 1993, o covarde e brutal assassinato da menina Araceli é símbolo de injustiça e impunidade no país. Ela, aos oito anos de idade, teve os mamilos dos seios arrancados a dentadas, após raptada, drogada e estuprada. Os acusados do homicídio, integrantes de famílias tradicionais, foram condenados. Mas, a sentença acabou sendo anulada, através de recurso judicial. A data do crime, 18/5 de 1973, notabiliza o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, instituído no ano 2000.

– Desse apavorante caso tenho lastimáveis alvitres, Marineth. Um deles, por exemplo, ter que deixar o Espírito Santo às pressas, diante de possível ameaça de atentado à vida. Estava com os saudosos amigos e jornalistas Jorge Elias de Barros Sobrinho e José de Jesus Louzeiro – este autor do romance-reportagem Araceli, meu amor – quando policiais pediram para abandonarmos a cidade. À época, a morte da menina ainda cercada de mistérios e desmandos da ditadura civil-militar (1964-1985) deixava Vitória suscetível a toda forma de violência. Todo cuidado era pouco!

– Athaliba, o que de fato se passou? Que trem doido aconteceu?

– Atuei, Marineth, com Jorge Elias, na cobertura do assassinato de Araceli Cabrera Sánchez Crespo. Trabalhávamos na Última Hora, onde José Louzeiro era editor. Além das matérias sobre o crime, o subsidiamos com informações para aquele livro. E, então, fomos fazer o lançamento no Espírito Santo, com colaboração do deputado Clério Falcão. Daí, com a notícia repercutindo nas rádios, a “barra ficou pesada”, como diziam policiais que nos recomendaram deixar a cidade. E retornamos ao Rio, com Louzeiro “pilotando” o possante Opala. O automóvel zunia na estrada!

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– Athaliba, recordando o caso, a menina sumiu após deixar a escola em que estudava, na Praia do Suá. A mãe, a boliviana Lola Cabrera Crespo, havia pedido para ela sair mais cedo do colégio, pegar o ônibus e voltar para casa. Testemunha contou que, ao contrário da menina entrar no ônibus, ela foi vista brincando com um gato num bar. O seu corpo, desfigurado por ácido, com marcas de violência e abuso sexual, fora encontrado nos fundos do Hospital Jesus Menino. O pai, o espanhol Gabriel Sánchez Crespo, reconheceu o corpo da menina, tempos depois.

– Marineth, a promotoria acusou Dante de Barros, o Dantinho; o pai, Dante de Brito Michelini; e Paulo Constanteen Helal como autores do trucidamento da menina. Integrantes de tradicionais famílias do Espírito Santo, Paulo e Dante foram condenados a oito anos de prisão e multa de 18 mil cruzeiros. Dante Michelini pegou cinco anos de reclusão. Sentença baseada na materialidade e a autoria do crime. No entanto, anos depois, o Tribunal de Justiça do Espírito Santo anulou a sentença. O crime que abalou o Brasil sofreu violento retrocesso, voltando à estaca zero.

– Pois é, Athaliba. Os sentenciados recorreram da decisão judicial. Aí, novas investigações, com novo juiz, que levou duradouros anos estudando o processo. Por fim, após escrevinhar nova sentença em centenas de páginas, o meritíssimo Paulo Copolilo decidiu absolver os acusados por absoluta falta de provas. Anos depois, em 1993, o crime prescreveu, sem punição dos culpados. Araceli, se viva fosse, teria netos e até seria bisavó, nos dias atuais. Infelizmente, a violência sofrida por ela continua a refletir em outras crianças que são violentadas, com agressores impunes. E essa sensação de impunidade por parte dos agressores resulta, inclusive, na exploração e prostituição infantil de milhares de meninas no país.

– Marineth, a UNICEF – Fundo das Nações para a Infância – estima que no Brasil cerca de 250 mil crianças são exploradas no mercado de prostituição. Essa quantidade é mais que o dobro da população de Itabira, cidade mineira, berço do saudoso poeta Carlos Drummond de Andrade. Os dados de 2010 foram aferidos em fatores “como situação de pobreza, falta de assistência social e psicológica”. A observação é do sociólogo Paulo Silvino Ribeiro, que é taxativo ao afirmar que “cabe ao Estado zelar pelo bem-estar da criança e do adolescente, em especial por aqueles em maior situação de vulnerabilidade social”.

– Ele tem razão, Athaliba. É sabido e notório o “turismo sexual” para estrangeiros de diversas nacionalidades, no Nordeste, onde são exploradas meninas pobres. Já o “turismo sexual” de viés nacional acontece em postos de combustíveis e na beira das rodovias, a preço de banana. Sabe, continuo indignada com o assassinado e o desfecho do caso Araceli.

– Não à-toa, Marineth, com razão, parte da sociedade acha que o vil metal é o fiel da balança da justiça. A morte de Araceli abalou o país e as marcas do brutal assassinato estão reproduzidas no livro de Louzeiro. Com ele dividi a autoria de Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, varando madrugadas em Laranjeiras. Jorge, ele e eu, parceria de saudades!

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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