Dias antes de o governo federal decidir acabar com as bets no Brasil, uma voz destoou da mobilização de grandes clubes em defesa das casas de apostas.
O Cuiabá, atualmente na Série B, decidiu não acompanhar o movimento do futebol pela manutenção do mercado e reafirmou publicamente sua posição contrária às empresas do setor.
O posicionamento partiu do presidente do clube, Cristiano Dresch, justamente quando Flamengo, Palmeiras, São Paulo, Santos, Botafogo, Fluminense, Vasco, Cruzeiro e outros times se movimentavam contra as restrições que estavam sendo discutidas pelo governo.
Dresch foi direto ao explicar por que o Cuiabá havia decidido manter distância das casas de apostas.
“É um segmento nocivo à sociedade, às famílias”, afirmou o dirigente.
Em outra manifestação, foi ainda mais contundente ao dizer que nunca concordou com o segmento e relacionar as apostas a problemas sociais e familiares.
A posição ganhou novo significado depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou a medida provisória que determina o fim das bets no país.
“Não vai ser a falta de bets que vai falir o futebol”
A manifestação do Cuiabá também confrontou um dos principais argumentos apresentados pelos clubes que defendiam a manutenção das apostas: o de que a saída das empresas provocaria um forte desequilíbrio financeiro no futebol brasileiro.
Dresch reconheceu que abrir mão desse mercado tem consequências financeiras, mas afirmou que o Cuiabá encontrou outras formas de financiar suas atividades.
O clube utiliza receitas de televisão, patrocinadores e negociação de jogadores para equilibrar o orçamento.
Segundo o dirigente, a eventual saída das casas de apostas poderia inclusive contribuir para reduzir a escalada dos gastos dos clubes.
“Não vai ser a falta de bets que vai falir o futebol brasileiro”, afirmou.
Na avaliação apresentada por Dresch, o grande volume de dinheiro colocado pelas casas de apostas também contribuiu para uma inflação nos salários e custos do futebol.
O Cuiabá está há quase dois anos sem patrocinador máster na parte frontal da camisa. Em 2026, chegou a utilizar o espaço para divulgar a campanha “Movido a Etanol”, ligada ao biocombustível produzido em Mato Grosso.
Coritiba também seguiu fora da mobilização
Na Série A, alguns clubes também se mantiveram distantes da mobilização em defesa das bets.
O Coritiba foi um deles.
O clube paranaense não aderiu ao movimento organizado para pressionar contra as restrições às casas de apostas e atualmente também está entre as poucas equipes da primeira divisão que não possuem vínculo comercial com empresas do setor.
Além do Coritiba, Athletico-PR, Bahia e Internacional estão atualmente sem contratos com casas de apostas.
Mirassol e Red Bull Bragantino não possuem uma bet como patrocinadora principal, mas mantêm acordos secundários com empresas do segmento.
O cenário coloca esses clubes em situação diferente da maior parte da Série A diante da proibição determinada pelo governo.
Bets dominam patrocínios da Série A
A posição desses clubes contrasta com a dependência financeira que boa parte do futebol brasileiro passou a ter dos recursos das casas de apostas.
Atualmente, 14 dos 20 clubes da Série A possuem uma bet como patrocinadora principal.
Somente esses contratos representam pelo menos R$ 910 milhões em 2026.
Em 2025, cerca de R$ 1,1 bilhão das receitas de marketing dos principais clubes brasileiros vieram das casas de apostas, segundo levantamento da Sports Value.
Foi diante desse peso financeiro que parte dos clubes se mobilizou quando começaram a surgir informações de que o governo preparava restrições ao setor.
Um dos documentos divulgados durante a reação recebeu o título de “O fim do futebol brasileiro” e defendia a manutenção do mercado regulamentado.
Os clubes argumentavam que a proibição provocaria perda de receitas, atingiria equipes de diferentes divisões e poderia favorecer plataformas clandestinas.
Futebol não teve posição unânime
A reação, porém, nunca foi unânime.
Enquanto grandes clubes defendiam publicamente a permanência das empresas, equipes como Coritiba, Athletico-PR, Bahia e Internacional ficaram fora de parte da mobilização.
O Internacional chegou a reconhecer publicamente a necessidade de enfrentar os impactos sociais associados às apostas, embora também tenha manifestado preocupação com as consequências financeiras de mudanças no modelo.
O Cuiabá adotou uma posição mais contundente.
Mesmo fora da Série A, o clube decidiu enfrentar diretamente o argumento de que o futebol não conseguiria sobreviver sem os recursos das casas de apostas.
Poucos dias depois, o debate mudou completamente.
Com a publicação da medida provisória que determina o encerramento das bets, os clubes que construíram seus orçamentos sem recursos do setor entram no novo cenário sem a necessidade de substituir contratos milionários que agora terão de ser encerrados.


