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Home Colunas

A PÉROLA NEGRA DO SAMBA

Por Ediel Ribeiro
21 de julho de 2025 - 22:11
em Colunas

Se viva, Jovelina faria hoje 81 anos. Divulgação  

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Rio de Janeiro – Há vinte anos o samba perdia Jovelina Pérola Negra.

A cantora que nos deixou em 2 de novembro de 1998, era uma verdadeira jóia da nossa cultura popular.

Cantora e compositora de voz rouca e forte, era considerada herdeira do estilo de Clementina de Jesus.

Nasceu, Jovelina Faria Belford, no Bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. Ainda muito jovem, mudou-se para a zona norte.

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Era fã de Bezerra da Silva, e sob sua inspiração começou a fazer apresentações no Vegas Sport Clube, em Coelho Neto, levada pelo amigo Dejalmir, que, na época, batizou a cantora de  Pérola Negra (o epiteto era uma homenagem a sua cor).

Tempos depois, mudou-se para Madureira onde, na Escola de Samba Império Serrano, integrou, por anos a fio, a ala das Baianas.

Na Estrela de Madureira, conheceu Aniceto, Roberto Ribeiro, Jorginho do Império, Arlindo Cruz e outros nomes de peso da escola. Começou a cantar ao lado desses artistas e virou atração no Show Botequim do Império.  

A cantora também conquistou muita simpatia no meio artístico e tinha Maria Bethânia e Alcione como suas fãs declaradas.

Nos anos 90, eu e Irene Ribeiro entrevistamos Jovelina Pérola Negra para a rádio 96 FM.

Jovelina morava em Jacarepaguá. Irene foi buscá-la. Ela odiava o trânsito caótico do Rio e, por isso, falava muitos palavrões. 

No carro, a caminho da entrevista, Jovelina, sempre que alguém buzinava atrás do nosso carro, ou freava à frente, Jovelina colocava a cabeça pra fora e gritava: “Anda, seu merda!” “Vai buzinar pra tua mãe, seu babaca!” Era irreverente, como seus sambas.

Chegou na rádio rodeada de fãs.

Sua história é um testemunho de luta e superação. Mas, apesar de toda adversidade tinha uma alegria surpreendente. Ela explicou. “Já sofri demais. Chorei demais. Fui empregada doméstica e vendedora de linguiça. Agora, quero sorrir.”

Jovelina pertencia a dinastia das grandes vozes femininas do samba. Foi uma das peças mais importantes na condução do samba de fundo de quintal e do pagode de raiz para a linha de frente da MPB.

A artista estreou na música tardiamente, em 1985, quando já tinha 40 anos. Estreou participando em três faixas do pau de sebo (LP com uma coletânea de sambas) Raça Brasileira. No ano seguinte, a cantora gravou seu primeiro disco solo com sambas de sua autoria e de compositores como Nei Lopes e Monarco.

Ao todo gravou seis discos, entre eles, “Sorriso Aberto”, em 1988; “Sangue Bom”, em 1991 e “Vou na Fé”, em 1993, quando conquistou um disco de platina. Seu maior sucesso foi a música “Feirinha da Pavuna”. Com ela, foi indicada ao Prêmio Sharp como melhor cantora de samba, ao lado de Elza Soares e Ivone Lara.

Jovelina era alegre e extrovertida. Viveu histórias inusitadas e irreverente na vida e no samba.

Lembro de uma contada por outra grande dama do samba, Dona Ivone Lara, Imperiana como ela. As duas haviam acabado de cantar e estavam esperando o contratante fazer o pagamento. Mas o sujeito ficava indo de um lado para o outro e nem olhava para elas. E Jovelina impaciente, já achando que ia tomar um calote. “Calma irmã, ele já vai pagar”, disse Dona Ivone, para acalmar os ânimos. ” É bom mesmo, porque senão eu mordo ele”, ameaçou Jovelina. 

Outra que ela gostava de contar era que uma vez, num de seus shows, ela exigiu que o contratante adiantasse parte do seu cachê. O homem virou-se pra ela e avisou: “vou botar o dinheiro no seu borderô.”

E ela: “No meu borderô ninguém bota não!”

Jovelina era assim.

A dama do samba morreu de enfarte, aos 54 anos, enquanto dormia em sua casa, no bairro da Pechincha, em Jacarepaguá.

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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