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Home Colunas

A HISTÓRIA DO CARTOON

Por Redação
2 de março de 2026 - 08:19
em Colunas
A HISTÓRIA DO CARTOON

Reprodução | Arquivo

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Rio – O “Cartoon”, um tabloide de humor, lançado por mim, no final dos anos 80, foi um negócio de doido. Em todos os sentidos.

Eu tinha um bar na Lapa. “Retiro dos Artistas” (Rua do Lavradio, esquina com Rua do Riachuelo), frequentado por artistas, boêmios, jornalistas, prostitutas e travestis. A freguesia não era lá essas coisas, mas a vizinhança era boa.

Jaguar, cronista do jornal “O Dia”, morava num apart-hotel, ao lado e, às vezes, passava pra tomar uma; Danilo Alvim, o “Principe Danilo”, jogador do Vasco, morava alí perto e almoçava lá; O pintor e ceramista chileno, Jorge Selarón, morava ali perto, na Rua Manoel Carneiro, também conhecida como “Escadaria Selarón”, estacionava lá sua bicicleta, pela manhã, para tomar seu cafezinho; Madame Satã morava na Rua Morais e Vale, bem perto. Uma pequena rua onde moraram Chiquinha Gonzaga e o Poeta Manoel Bandeira; Oswaldo Nunes, compositor do Bafo da Onça, também era vizinho do bar. O sambista, autor de “Oba’, de 1962, que acabou virando hino do Bloco, morava num prédio em frente, onde, aliás, foi assassinado, vítima de homofobia.

Vendi o bar pra fazer o jornal.

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Eu editava, escrevia, ilustrava e ainda varria a redação, que, segundo alguns difamadores, era o que eu fazia de melhor. Guardada as proporções, o “Cartoon” foi como o “Carapuça”, do Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. Teve vida breve. Saíram só cinco números. Era um jornal meio amador, não tinha retorno financeiro, periodicidade, publicidade… fazíamos pelo prazer. Ninguém ganhava nada!

A coisa era tão desorganizada, que nem eu tenho os cinco números que saíram. Tenho quatro, mesmo assim, porque recebi de presente do cartunista e amigo Ferreth, que comprava numa banca em Copacabana. Os primeiros três números foram bem. Pudera! o “Pasquim” vivia seus últimos dias e não havia nenhum outro jornal de humor, na época. Aliás, havia “O Planeta Diário”, que apesar de ser feito por cartunistas, não publicava cartuns.

O ‘Cartoon’ número zero foi lançado no final dos anos 80. Uma edição experimental exclusiva para apresentação ao mercado publicitário. O número um, saiu em janeiro de 1990, já no período de abertura política e com a ditadura militar em declínio. O DOPS — órgão de repressão e vigilância — já não tinha a mesma força e relevância de anos anteriores, quando perseguia jornalistas, artistas e intelectuais.

Mesmo assim, o fantasma da repressão ainda rondava. Havia medo. Havia memória. E era justamente essa lembrança que dava ao ‘Cartoon’ sua força: rir de tudo, inclusive de si mesmo e da sombra que por tanto tempo tentou calar as gargalhadas.

Por minha passagem pelo jornal Luta Democrática, fundado pelo Deputado Federal da UDN, Tenório Cavalcanti, nos anos 70 e o envolvimento na criação do ‘Cartoon’, tive meu nome associado ao Dops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social). No entanto, diferentemente de jornais como O Pasquim, Movimento, Opinião ou Binômio, que foram alvo de vigilância e até prisões durante os anos de chumbo, o Cartoon, por sorte, surgiu em outro contexto histórico, sem prisões ou perseguição direta do DOPS.

O jornal nasceu em um Brasil que ainda respirava o cheiro da ditadura, mas já podia abrir as janelas. Era o início dos anos 90. A censura, que por três décadas – 1964/1985 – tinha se infiltrado em redações e teatros, já não tinha mais a mesma força. O DOPS, aquele órgão que caçava jornalistas, artistas e qualquer um que ousasse rir do poder, estava em declínio.

Diferente de gerações anteriores, como a turma do Pasquim, que viveu a experiência de ver o humor virar caso de polícia, pude colocar nas ruas o Cartoon sem ter que passar pelo carimbo dos censores ou pelas portas do DOPS. O jornal de humor surgia, portanto, não como resistência ao chicote, mas como exercício da liberdade recém-conquistada.

Passaram pelas páginas do Cartoon nomes como Jaguar, Nani, Nássara, Lan, Gonzalo Cárcamo, Chico Caruso, Paulo Caruso, Ique , Aroeira, Santiago, Lailson, Ferreth, Ykenga, Netto, Lino, Valtério, Lage, Fred, Amorim, Claudio Paiva, Aliedeo, Alê, Erthal, Chacal, Bartolo, Kipper, Alvim, Aragão e Celim, entre outros.

O Cartoon não era apenas um jornal de humor. Ele tinha uma identidade visual própria, que fugia da estética mais underground de publicações como O Pasquim. A direção de arte apostava em traços limpos, páginas mais organizadas e uso criativo do espaço em branco. Era como se dissesse: “o humor também pode ser sofisticado, sem perder a sagacidade”.

Enquanto o Pasquim tinha aquela cara de resistência, quase de guerrilha gráfica, o Cartoon apresentava-se como um produto moderno, bem acabado, dialogando com um leitor urbano, acostumado a jornais e revistas já mais profissionais no final dos anos 80. Isso fazia com que as charges, tiras e textos se destacassem ainda mais, porque não havia poluição visual. O Cartoon foi associado à ousadia de criar humor em um país que finalmente aprendia a rir sem pedir licença. No conteúdo, porém, a ousadia permanecia. O humor era ácido, debochado, provocador.

O ‘Cartoon’ chegou às bancas com manchetes que desafiavam a já debilitada Ditadura Militar: “Cadê o salarim que tava aqui? O Collor comeu!”; “Impeachment Nelle”; “A Namorada Misteriosa de Itamar Franco” (sob a foto de uma modelo obesa) e “O Ministério Itamar” (embaixo da foto dos Três Patetas).

A linha editorial permitia espaço para jovens cartunistas e escritores experimentarem sem amarras. Essa combinação – liberdade editorial + direção de arte limpa — dava ao Cartoon uma cara única, um marco na imprensa de humor.

Por falta de publicidade, o jornal fechou.

Não ganhei nada. Mas me diverti pra cacete.

Tags: anos 80Cartoon jornalEdiel Ribeirohumor brasileiroimprensa alternativaLapa Rio
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