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Home Colunas

O ANGU DO GOMES

Por Ediel Ribeiro
19 de novembro de 2021 - 12:22
em Colunas

Arquivo / Divulgação - 

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Ali pelos idos dos anos 70/80, todo mundo comia o angu do Gomes – eu também.

Na madrugada, quando fechava o ‘Retiro dos Artistas’, um botequim que eu tinha na Lapa, sempre parava em uma das barracas do Angu do Gomes, na Praça XV, para comer o angu e tomar umas cervejas.

Mas aí, veio a crise econômica, no final dos anos 80, e, em 1995, o Angu do Gomes recolheu das ruas as carrocinhas e fechou as portas de vez.

Por vários anos, o tradicional Angu do Gomes sumiu da cena carioca. Mas, felizmente, nos últimos anos, a iguaria voltou à moda.

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Outro dia, saindo do prédio do jornal ‘O Globo’, onde fui deixar as minhas tirinhas da ‘Patty & Fatty’, na redação do ‘Expresso’, parei ali perto, na Rua de Santana, no Bar da Dona Ana, uma das herdeiras da receita original do Angu do Gomes.  

O boteco tem muitos trunfos. O primeiro deles talvez seja o angú, bastante procurado. Outro trunfo é a feijoada sempre saborosa da Dona Ana.

Na fachada do número 183 da Rua de Santana, uma placa diz que ali funciona o ‘Galeto 183’, mas todo mundo conhece o lugar como ‘Bar da Dona Ana’, merecido tributo à proprietária, a simpática portuguesa Ana Campos. 

Um clássico carioca, o angu do gomes, é preparado por lá com a receita original, cedida por João Gomes, filho do criador da iguaria — emoldurada, o passo a passo, manuscrito, tem lugar de destaque na parede.

A iguaria chega saborosa em frigideira com polenta bem temperada com ragu de rabada, acém, bacon, paio, coração e outros miúdos de boi. 

Vizinho do jornal ‘O Globo’, o boteco é frequentado especialmente por jornalistas – o botequim é conhecido por ser quase uma extensão da redação do jornal carioca. Artistas e intelectuais também frequentam a casa. O saudoso jornalista, escritor e crítico musical Luiz Paulo Horta, que ocupava a cadeira  de Machado de Assis na Academia Brasileira de Letras, era fã da rabada e do angu da Dona Ana e tinha uma cadeira cativa no boteco e uma foto na parede, de fardão.

Bom e barato, por mais de duas décadas o Angu do Gomes era a principal opção das madrugadas para os cariocas. As carrocinhas representaram um democrático espaço de convivência: ricos e pobres, universitários, prostitutas, apontadores do “bicho” e intelectuais, as mais diversas camadas da sociedade reuniam-se para compartilhar um prato que representava um símbolo de resistência do Rio Antigo.

Jaguar morava num balança-mas-não cai, na Lapa. A grana era curta, mal dava para pagar o aluguel e, para comer, o cartunista recorria, nas madrugadas ao angu do Gomes. Mesmo os endinheirados, como o milionário Jorginho Guinle – que garantia que o Angu do Gomes era afrodisíaco – e o ex-presidente Juscelino Kubitscheck,  eram fãs da iguaria.

Artistas como Sérgio Mendes, Tom Jobim, Roberto, Erasmo Carlos e o sambista João Nogueira eram clientes assíduos da famosa carrocinha.  O sambista, inclusive, cita o angu famoso em um trecho da música “Espere oh! nega”, do disco “Espelho”, de 1977. Vó Maria, a sambista, viúva de Donga, também fez parte da história da marca, assim como Henfil e o escritor Ruy Castro.

Trazido pelos escravos africanos que vieram para o Brasil, o angu que ganhou  marca registrada e se espalhou pelas ruas da cidade, nasceu há 66 anos. Em 1955, o português Manuel Gomes teve a ideia de vender angu com miúdos de boi em carrocinhas espalhadas pelas ruas do Rio. A inspiração veio de uma baiana que preparava o angu em uma lata grande e o vendia na Praça Quinze. A primeira barraquinha foi montada na Central do Brasil no início dos anos 50 e fez sucesso. 

Dez anos depois, com a morte do velho Manuel Gomes,  seu filho João Gomes se juntou a Basílio Augusto Moreira, para fazer o comércio se expandir. Em 1977, a marca ganhou seu primeiro endereço fixo. De 100 pratos diários, eles passaram a servir 400. No auge, na década de 70, chegaram a ter 80 carrocinhas espalhadas pela cidade.

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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