O Paraguai encerrou nesta sexta-feira (6) o processo de impeachment de Santiago Peña com a destituição do presidente por unanimidade no Senado. Horas depois, já fora do cargo, Peña foi detido por ordem do Ministério Público e terminou a noite transferido para uma unidade militar em Assunção, depois que manifestações tomaram os arredores de sua residência.
A crise começou com o colapso do Ueno Bank e avançou rapidamente do sistema financeiro para o Congresso e, agora, para a Justiça.
Na quinta-feira (5), a Câmara dos Deputados havia aprovado a abertura do julgamento político com 78 votos favoráveis. O texto acusava Peña de mal desempenho das funções, conflito de interesses e de favorecer operações ligadas ao Ueno Bank, inclusive por meio da concentração de recursos públicos na instituição.
Nesta sexta-feira, o processo chegou ao Senado.
A defesa pediu mais 72 horas para preparar a manifestação, mas o pedido foi rejeitado por 39 votos contra, três a favor e duas abstenções. Mais tarde, os senadores admitiram por unanimidade as provas apresentadas pela acusação.
No final da tarde, os 44 senadores presentes votaram pela destituição de Peña. O Senado declarou o presidente culpado por mal desempenho de suas funções e determinou sua saída imediata do cargo.
O então vice-presidente Pedro Alliana assumiu a Presidência e deverá completar o mandato até agosto de 2028. O Congresso também escolheu Antonio Barrios para a Vice-Presidência.
Renúncia não interrompeu impeachment
Peña chegou a apresentar renúncia enquanto o processo avançava na Câmara.
O Congresso, porém, decidiu prosseguir com o julgamento político. A renúncia não encerrou o processo e o Senado concluiu a votação que resultou em sua destituição.
O impeachment foi impulsionado principalmente pela crise do Ueno Bank, instituição que entrou em processo de resolução depois que o Banco Central do Paraguai identificou deterioração patrimonial e queda do índice de solvência para menos da metade do mínimo exigido.
O banco tinha milhões de clientes e concentrava grandes volumes de recursos públicos, inclusive depósitos do Instituto de Previsión Social, responsável pela previdência e pela assistência médica de trabalhadores paraguaios.
Entre as acusações apresentadas no Congresso estavam a antiga relação empresarial de Peña com estruturas ligadas ao grupo Ueno, a nomeação de Carlos Carvallo, ex-dirigente da Financiera Ueno, para comandar o Banco Central e a concentração de recursos públicos no banco.
Fiscalía determina detenção de Peña
Logo após a perda do cargo, o Ministério Público ordenou a detenção de Santiago Peña.
A investigação criminal apura, entre outros fatos, lesão de confiança, administração em proveito próprio e tráfico de influência, relacionados ao caso Ueno.
A ordem inicial determinava que o ex-presidente permanecesse detido em sua própria residência até ser apresentado à Unidade Especializada de Delitos Econômicos e Anticorrupção do Ministério Público.
O ex-presidente do Banco Central Carlos Carvallo também teve a prisão determinada e se apresentou posteriormente à polícia.

Protestos cercam residência
A prisão domiciliar de Peña provocou novas manifestações.
Durante a noite, grupos se concentraram diante da residência do ex-presidente em Assunção pedindo que ele fosse enviado para uma unidade prisional.
Houve confrontos entre manifestantes e policiais. Um comissário ficou ferido por um objeto lançado durante os tumultos, enquanto a polícia afirmou ter identificado pessoas infiltradas entre os participantes.
Manifestantes permaneceram em vigília e acompanharam a movimentação das forças de segurança.
Os protestos também se espalharam por outras cidades.
Em Villarrica, grupos foram às ruas com cartazes e palavras de ordem pedindo “prisão para Peña” e cobrando o avanço das investigações. Também houve reivindicações pela devolução dos depósitos dos clientes afetados pela crise do Ueno Bank.
Em Ciudad del Este, manifestantes comemoraram a destituição com gritos de “Sí se pudo”, mas também fizeram críticas à posse de Pedro Alliana, apontando continuidade do mesmo grupo político no poder.
Peña é retirado de casa e levado para unidade militar
Pouco antes da meia-noite, o esquema de segurança decidiu retirar Peña de sua residência.
O ex-presidente deixou o imóvel em uma caravana de veículos oficiais e foi levado para o Regimento Escolta Presidencial, instalação militar localizada em Assunção.
A justificativa apresentada foi de segurança.
Segundo autoridades paraguaias, a concentração de manifestantes e os incidentes registrados ao redor da residência tornaram difícil manter Peña no local.
Durante a saída do comboio, moradores e manifestantes atiraram ovos e outros objetos contra os veículos e gritaram insultos.
Peña deverá permanecer temporariamente no Regimento Escolta Presidencial.
Estava prevista para este sábado (7), às 11h, sua transferência para a sede do Ministério Público para as primeiras diligências da investigação criminal. Até a manhã deste sábado, não havia confirmação pública de mudança nessa programação.
A destituição encerra o mandato presidencial de Peña, mas abre uma nova etapa da crise.
Além do ex-presidente e de Carvallo, 27 pessoas já foram formalmente investigadas ou processadas em diferentes frentes relacionadas ao Ueno Bank, incluindo ex-executivos e pessoas ligadas a empresas associadas à instituição.


