Donald Trump conseguiu na Argentina um dos resultados mais favoráveis de sua política para a América do Sul. Em outubro de 2025, semanas depois de o governo dos Estados Unidos oferecer apoio financeiro ao governo de Javier Milei e de o próprio Trump vincular publicamente a continuidade desse apoio ao desempenho do argentino nas eleições legislativas, o partido governista conquistou uma vitória expressiva.
O resultado fortaleceu Milei no Congresso num momento em que sua aprovação havia caído para 39,9%, enquanto a desaprovação chegava a 55,7%.
La Libertad Avanza terminou a eleição com mais de 40% dos votos, contra cerca de 31% do peronismo, ampliando sua presença na Câmara e no Senado e garantindo ao presidente uma base sólida para sustentar vetos e negociar sua agenda no Legislativo.
A vitória ocorreu depois de uma forte intervenção financeira e política de Washington.
O Tesouro americano abriu uma linha de swap de até US$ 20 bilhões com o Banco Central argentino. Documentos oficiais mostram que, apenas em outubro de 2025, foram utilizados US$ 2,5 bilhões dessa linha. Os Estados Unidos também apoiaram um programa de US$ 20 bilhões do Fundo Monetário Internacional para a Argentina.
O apoio de Washington foi além da área econômica.
Em encontro com Milei na Casa Branca, em 14 de outubro de 2025, Trump vinculou publicamente a continuidade da ajuda ao resultado eleitoral. Disse que os Estados Unidos permaneceriam ao lado do governo argentino em caso de vitória, mas deixariam de apoiá-lo em caso de derrota.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, também havia viajado a Buenos Aires meses antes para manifestar apoio às reformas de Milei.
A ajuda chegou quando o presidente argentino enfrentava turbulência econômica, queda de popularidade e vinha de uma derrota eleitoral na província de Buenos Aires. Poucas semanas depois, seus aliados venceram as eleições legislativas nacionais.
Um ano depois, Trump perde dentro de casa
O cenário mudou nas eleições de meio de mandato realizadas nesta terça-feira (3) nos Estados Unidos.
Os democratas conquistaram Câmara e Senado e avançaram também nos governos estaduais, impondo a Trump a maior derrota eleitoral de seu segundo mandato.
A perda das duas Casas muda a relação do presidente com o Congresso. Os democratas passarão a controlar comissões da Câmara, poderão convocar integrantes do governo, abrir investigações e bloquear parte da agenda presidencial.
No Senado, terão poder sobre indicações para ministérios, embaixadas e tribunais federais, além de maior capacidade para barrar projetos da Casa Branca.
A derrota americana ocorre um ano depois de Trump ter usado o peso econômico e diplomático dos Estados Unidos para fortalecer Milei na Argentina.
A estratégia funcionou em Buenos Aires. Não se repetiu dentro dos próprios Estados Unidos.
No Brasil, pressão também não garantiu resultado
O Brasil apresentou outro resultado contrário aos interesses políticos defendidos por Trump na região.
Ao longo de 2025 e 2026, o governo americano aplicou tarifas, sanções e fez declarações públicas contra decisões tomadas pelas instituições brasileiras durante os processos envolvendo Jair Bolsonaro.
Washington elevou tarifas sobre produtos brasileiros e aplicou sanções ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Trump também pediu publicamente o encerramento dos processos contra Bolsonaro.
Na eleição presidencial de 2026, o campo político ligado ao ex-presidente foi representado por Flávio Bolsonaro.
Lula foi reeleito em 25 de outubro com 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos, ou 48,21%, de Flávio. A diferença superou 4,4 milhões de votos.
A vitória manteve no comando do maior país da América do Sul um presidente que defende maior autonomia regional e fortalecimento da integração entre os países sul-americanos.
Lula amplia diálogo com governos de direita
A reeleição brasileira ocorre em um continente onde partidos de direita e centro-direita avançaram em diferentes países nos últimos anos.
Mesmo nesse cenário, o governo Lula ampliou o diálogo com presidentes de diferentes orientações políticas.
Em 2026, Brasil e Bolívia avançaram em acordos de integração energética e infraestrutura. O governo brasileiro também manteve negociações com o Equador em áreas como comércio, segurança e integração regional.
Com o Chile, Lula e José Antonio Kast discutiram cooperação econômica e projetos de integração, apesar das diferenças políticas entre os dois governos.
A relação com a Argentina também continua sustentada por comércio, Mercosul, energia e integração regional, mesmo com as divergências entre Lula e Milei.
O Brasil permanece como principal parceiro comercial ou um dos principais mercados de vários países da América do Sul. Essa posição amplia o peso de Brasília nas relações regionais independentemente da orientação ideológica dos governos vizinhos.
Estratégia de Trump perde força na região
A sequência dos acontecimentos altera o cenário político para Trump na América do Sul.
Na Argentina, o apoio financeiro e político americano antecedeu a vitória dos aliados de Milei e fortaleceu um governo alinhado à Casa Branca.
No Brasil, tarifas, sanções e pressão diplomática não impediram a reeleição de Lula.
Agora, nos próprios Estados Unidos, Trump perdeu o controle da Câmara e do Senado e viu os democratas ampliarem sua presença nos governos estaduais.
A nova configuração reduz sua margem política interna justamente no momento em que o Brasil amplia o diálogo com governos sul-americanos de diferentes correntes políticas.
A Argentina representou o maior sucesso recente da estratégia de Trump na região. O Brasil mostrou o limite dessa influência. E as urnas americanas acrescentaram um novo obstáculo: Trump passa agora a conduzir sua política externa sem o controle do Congresso que tinha desde o início do segundo mandato.


