A derrota sofrida por Donald Trump nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos ocorre apenas dez dias depois de Luiz Inácio Lula da Silva vencer a eleição presidencial brasileira em uma disputa que também teve forte presença do governo americano.
Durante mais de um ano, Trump utilizou tarifas, sanções e declarações públicas para pressionar autoridades brasileiras em defesa de Jair Bolsonaro. Mesmo assim, Lula derrotou Flávio Bolsonaro por 4.430.191 votos no segundo turno realizado em 25 de outubro.
Agora, o presidente americano enfrenta uma derrota eleitoral dentro do próprio país.
Os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado e avançaram também nos governos estaduais. Em 2027, o partido terá pelo menos 28 dos 50 governadores, alcançando maioria entre os estados pela primeira vez em duas décadas.
O resultado mostra uma perda de força política de Trump em diferentes níveis. Além de perder o controle do Congresso, o Partido Republicano foi derrotado em estados que tradicionalmente votavam com a legenda e em outros que haviam sido conquistados por Trump na eleição presidencial de 2024.
No Brasil, a tentativa de pressão externa também não produziu o resultado esperado.
Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro terminou com 59.826.041 votos, ou 48,21%.
Tarifas e sanções foram usadas para pressionar o Brasil
A atuação de Trump sobre questões internas brasileiras ficou explícita em julho de 2025.
O governo americano aplicou uma tarifa adicional de 40% sobre determinados produtos brasileiros, elevando a taxação total para 50%. No documento oficial que justificou a medida, a Casa Branca citou diretamente o tratamento dado a Jair Bolsonaro pelo Judiciário brasileiro.
Na mesma data, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, utilizando a Lei Magnitsky.
O próprio comunicado oficial americano relacionou a decisão aos processos que envolviam Jair Bolsonaro.
Trump também havia pedido publicamente que as autoridades brasileiras deixassem Bolsonaro “em paz” e defendido o encerramento dos processos contra o ex-presidente.
As medidas provocaram uma crise diplomática e comercial entre os dois países e foram interpretadas pelo governo brasileiro como tentativa de interferência em questões internas.
Apesar da pressão, Jair Bolsonaro foi condenado, e a eleição presidencial brasileira terminou com a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro.
Democratas avançam até em redutos republicanos
Nos Estados Unidos, a derrota republicana foi além do Congresso.
Os democratas conquistaram governos estaduais em Texas, Georgia, Iowa e Ohio, estados onde os republicanos mantinham forte presença política.
No Texas, Gina Hinojosa derrotou o governador republicano Greg Abbott e tornou-se a primeira mulher latina a comandar o estado. Nenhum democrata era eleito para um cargo estadual no Texas desde 1994.
Na Georgia, Keisha Lance Bottoms foi eleita governadora e se tornou a primeira mulher negra escolhida para governar um estado americano.
Os democratas também venceram em todos os seis estados considerados decisivos na eleição presidencial de 2024: Arizona, Georgia, Michigan, Nevada, Pensilvânia e Wisconsin.
Em Nevada, Aaron Ford derrotou o governador republicano Joe Lombardo. Na Pensilvânia, Josh Shapiro foi reeleito. Katie Hobbs venceu novamente no Arizona, enquanto Jocelyn Benson conquistou o governo de Michigan e David Crowley venceu em Wisconsin.
Com os resultados, os democratas passarão a governar pelo menos 28 estados e praticamente todos os estados mais populosos do país, com exceção da Flórida.
Derrota limita poder de Trump
A perda simultânea da Câmara, do Senado e de governos estaduais altera o cenário político dos dois últimos anos do mandato de Trump.
Na Câmara, os democratas passarão a controlar as principais comissões e poderão convocar autoridades, requisitar documentos e abrir investigações sobre a administração federal.
No Senado, terão poder para dificultar ou bloquear indicações presidenciais para ministérios, embaixadas, tribunais federais e a Suprema Corte.
Nos estados, o crescimento do número de governadores democratas cria outro ponto de resistência às políticas do governo federal, especialmente em temas como imigração, uso da Guarda Nacional, regras eleitorais e repasses federais.
Trump continuará com amplos poderes constitucionais, sobretudo na política externa, no comércio e na edição de atos do Executivo. A derrota eleitoral não elimina, portanto, a capacidade de influência internacional dos Estados Unidos.
O resultado, porém, reduz o capital político do presidente e mostra que sua influência encontra limites até mesmo entre os eleitores americanos.
Brasil resistiu à pressão e decidiu nas urnas
O contraste entre os dois processos eleitorais ocorre em um intervalo de apenas dez dias.
No Brasil, Trump tentou utilizar o peso econômico e diplomático dos Estados Unidos para pressionar instituições brasileiras durante os processos contra Jair Bolsonaro.
A Casa Branca chegou a justificar oficialmente tarifas contra produtos brasileiros citando o caso do ex-presidente e classificando as ações do governo e do Judiciário brasileiro como ameaça aos interesses americanos.
Mesmo nesse ambiente, a eleição foi realizada e o resultado proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral. Lula venceu com mais de 64 milhões de votos, e manifestações de reconhecimento chegaram de mais de cem países e organismos internacionais.
Poucos dias depois, as urnas americanas retiraram do partido de Trump o controle do Congresso e entregaram aos democratas uma maioria inédita de governos estaduais nas últimas duas décadas.
Os resultados no Brasil e nos Estados Unidos não são diretamente comparáveis e ocorreram em contextos políticos distintos.
Eles mostram, no entanto, um limite comum ao poder político: tarifas, sanções, campanhas internacionais e apoio de líderes estrangeiros podem interferir no ambiente de uma eleição, mas não substituem a decisão dos eleitores.
No Brasil, a pressão americana não impediu a vitória de Lula.
Nos Estados Unidos, o próprio Trump não conseguiu evitar que seu partido perdesse Câmara, Senado e governos estaduais importantes.


