Romeu Zema (Novo) deixou o Governo de Minas em março deste ano para disputar a Presidência da República depois de duas vitórias consecutivas no estado. Sete meses depois, saiu das urnas com um resultado muito diferente daquele que marcou sua trajetória política até então.
O ex-governador recebeu 326.488 votos em todo o Brasil, equivalentes a 0,27% dos votos válidos, e terminou a eleição presidencial em sexto lugar. Em Minas Gerais, onde governou por mais de sete anos, foram apenas 98.407 votos, ou 0,82%.
Zema não foi o candidato mais votado em nenhum dos 853 municípios mineiros. Em Belo Horizonte, recebeu 17.464 votos, 1,22%. Mesmo em Araxá, sua cidade natal e principal reduto político, ficou com 4,67%, seu melhor percentual no estado.
A dimensão do resultado aparece quando comparada às duas eleições anteriores.
Em 2018, quando disputou pela primeira vez um cargo público, Zema recebeu 4,13 milhões de votos no primeiro turno e chegou ao segundo à frente de Antonio Anastasia (PSDB) e Fernando Pimentel (PT). Na votação decisiva, saltou para 6,96 milhões de votos, ou 71,8% dos válidos.
Quatro anos depois, foi reeleito governador ainda no primeiro turno. Em 2022, recebeu mais de 6 milhões de votos, cerca de 56% dos válidos, e venceu em 659 municípios mineiros.
Na eleição presidencial deste ano, pouco mais de 98 mil mineiros escolheram Zema.
A direita mineira escolheu Flávio
O resultado mostra também a dificuldade de Zema para ocupar o espaço político que buscou construir nacionalmente.
Durante a campanha, o ex-governador procurou apresentar-se como uma alternativa de direita ao PT e ao bolsonarismo, mas também adotou bandeiras próximas às defendidas pelo campo bolsonarista.
Na convenção que oficializou sua candidatura, defendeu o impeachment dos ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes e prometeu conceder indulto a Jair Bolsonaro e a condenados pelos atos relacionados ao 8 de Janeiro. Em entrevista ao Jornal Nacional, voltou a defender anistia e negou que tenha ocorrido uma tentativa de golpe durante o governo Bolsonaro. Em outra manifestação, porém, havia afirmado ser “totalmente contrário a qualquer tentativa de golpe”.
A estratégia não foi suficiente para conquistar parcela significativa do eleitorado de direita.
Em Minas, Flávio Bolsonaro recebeu 48,24% dos votos válidos, enquanto Lula teve 43,33%. Zema ficou com 0,82%.
No cenário nacional ocorreu movimento semelhante. Flávio terminou o primeiro turno com 47,03%, Lula com 45,16%, e Zema ficou atrás também de Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado.
O desempenho já vinha sendo sinalizado pelas pesquisas. Zema iniciou a campanha em patamar baixo e não conseguiu avançar enquanto a disputa se concentrava cada vez mais entre Lula e Flávio. Em agosto, pesquisa Datafolha mostrava o ex-governador com 3% das intenções de voto. Nas urnas, terminou com 0,27%.
Resultado atingiu também projeto de continuidade em Minas
A eleição estadual produziu outro revés para o grupo político construído por Zema.
Mateus Simões (PSD), eleito vice-governador na chapa de Zema em 2022 e alçado ao comando do estado em março deste ano, disputou a reeleição apresentando-se como continuidade da administração da qual participou desde 2019.
Simões recebeu cerca de 530 mil votos, 4,65% dos válidos, e terminou em quarto lugar. Cleitinho Azevedo (Republicanos) foi eleito no primeiro turno, com mais de 55%, seguido por Patrus Ananias (PT) e Flávio Roscoe (PL).
A dificuldade de Simões para transformar a avaliação da administração estadual em votos já aparecia durante a campanha.
Em setembro, ao ser questionado sobre a ausência de Zema em sua campanha, Simões afirmou que a situação não o preocupava porque considerava difícil que um eleitor observasse suas propostas sem associá-las ao ex-governador.
“Não é proposital, mas não me causa preocupação, até porque acho muito difícil que alguém olhe para as minhas propostas e não lembre dele imediatamente”, afirmou na ocasião.
A declaração evidencia o grau de associação política entre os dois.
Zema deixou o governo justamente para concorrer à Presidência, entregando o cargo a Simões. Enquanto o ex-governador buscava construir uma candidatura nacional, seu sucessor tentava convencer o eleitorado mineiro a manter no Palácio Tiradentes o grupo que comandava o estado desde 2019.
Nas urnas, nenhum dos dois projetos conseguiu preservar o eleitorado das eleições anteriores.
De desconhecido a governador
A trajetória de Zema torna o contraste ainda maior.
Empresário de Araxá e ligado ao Grupo Zema, ele chegou às eleições de 2018 praticamente desconhecido fora de determinadas regiões de Minas. Em setembro daquele ano, um mês antes da votação, aparecia com apenas 5% das intenções de voto no Datafolha.
A eleição mineira era protagonizada pelo então governador Fernando Pimentel, que tentava a reeleição pelo PT, e pelo ex-governador Antonio Anastasia, candidato do PSDB.
Na reta final, Zema cresceu rapidamente. Depois de participar do debate da TV Globo e fazer um aceno aos eleitores de Jair Bolsonaro, chegou à véspera da eleição com 24% dos votos válidos no Datafolha.
A campanha de Anastasia reagiu tentando atrair justamente os eleitores de Zema. O PSDB passou a defender o “voto útil” no tucano, argumentando que votos destinados ao candidato do Novo poderiam levar a disputa para o segundo turno. A estratégia não funcionou.
Zema surpreendeu e terminou o primeiro turno em primeiro, com 42,73%, contra 29,06% de Anastasia e 23,12% de Pimentel.
No segundo turno, com Pimentel fora da disputa e em meio à onda eleitoral que levou Jair Bolsonaro à Presidência, Zema ampliou a vantagem e venceu Anastasia por 71,8% a 28,2%. Estudos posteriores sobre aquela eleição identificaram o chamado “efeito Bolsonaro” como um dos componentes que impulsionaram a candidatura do então estreante.
Em 2022, o cenário foi diferente. Zema chegou à eleição como governador, com quatro anos de administração para apresentar ao eleitorado, e conquistou a reeleição no primeiro turno.
O teste nacional
A eleição de 2026 representou, portanto, um teste diferente para o capital político acumulado pelo ex-governador.
Pela primeira vez desde que entrou na política, Zema disputou uma eleição sem ter Minas Gerais como limite eleitoral e precisou construir apoio fora do estado. Ao mesmo tempo, enfrentou em seu próprio campo político um candidato que concentrou grande parte do eleitorado de direita.
O resultado mostrou que as duas vitórias consecutivas para o Governo de Minas não se converteram automaticamente em uma candidatura presidencial competitiva.
Também deixou uma questão para o grupo político que governou Minas desde 2019. Enquanto Zema recebeu menos de 1% dos votos presidenciais no estado, o candidato que assumiu seu governo e se apresentou como continuidade da gestão terminou a eleição estadual com menos de 5%.
Zema, por sua vez, avaliou o resultado por outro ângulo. Após a eleição, disse estar satisfeito com o desempenho da direita e comemorou o fato de o Novo ter alcançado a cláusula de barreira. O partido elegeu dez deputados federais e três senadores.


