Donald Trump utilizou a tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas nesta terça-feira (22) para apresentar uma política externa baseada na ampliação do poder militar americano, na rejeição a mecanismos internacionais que possam limitar decisões dos Estados Unidos e no enfrentamento direto a governos e organizações classificados por sua administração como ameaças.
Em aproximadamente 37 minutos, o presidente americano falou sobre a guerra contra o Irã, Venezuela, Cuba, México, cartéis de drogas, imigração, Ucrânia, inteligência artificial e o Tribunal Penal Internacional (TPI). Também criticou organismos da própria ONU e rejeitou propostas de tributação e governança global.
Trump apresentou suas ações militares como parte de uma estratégia que associa paz à demonstração de força. “Enquanto outros falaram, eu agi”, afirmou ao defender as decisões tomadas por seu governo e dizer que os Estados Unidos voltaram a exercer poder político e militar em diferentes regiões. A Casa Branca resumiu a mensagem do pronunciamento como uma defesa dos interesses e da soberania americana.
Irã domina parte do discurso
O Irã ocupou uma das partes mais extensas e duras da fala.
Trump defendeu a guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel e reiterou que não permitirá que Teerã desenvolva uma arma nuclear. O presidente atribuiu ao governo iraniano responsabilidade pelo financiamento de organizações armadas no Oriente Médio e pelos ataques contra Israel.
Ao falar sobre o futuro do conflito, alternou a possibilidade de negociação com uma ameaça direta de nova escalada militar.
Trump questionou se será possível chegar a um acordo que permita ao Irã se reconstruir ou se terá de “aniquilar a República Islâmica”. Na sequência, perguntou se deveria levar o país “para o inferno”.
Apesar da linguagem utilizada na ONU, o presidente disse acreditar que um entendimento ainda poderá ser alcançado. Horas depois do discurso, Trump informou que representantes americanos e iranianos haviam mantido uma reunião de aproximadamente três horas e classificou a conversa como positiva.
O conflito, iniciado no fim de fevereiro, já se aproxima de sete meses e provocou impactos sobre o mercado internacional de energia, especialmente após as restrições no Estreito de Hormuz.
Trump exalta arsenal e produção de munições
A capacidade militar americana apareceu repetidamente no pronunciamento.
Trump rejeitou informações de que os estoques de armamentos dos Estados Unidos estariam sendo pressionados pelo consumo de munições na guerra contra o Irã. Segundo ele, o país possui mais munições do que poderia utilizar e está produzindo armamentos em níveis sem precedentes.
O presidente também afirmou que novas estruturas industriais estão sendo construídas para ampliar a fabricação de munições.
A Associated Press registra, porém, que especialistas e aliados dos Estados Unidos vêm alertando para a redução dos estoques de sistemas avançados, especialmente interceptadores Patriot e THAAD e mísseis Tomahawk. Trump contestou esse diagnóstico durante o discurso.
A ampliação da capacidade militar foi apresentada como elemento central da estratégia americana. Trump afirmou que os Estados Unidos estão dispostos a utilizar seu poderio quando considerarem ameaçados seus interesses nacionais.
Venezuela vira exemplo para o continente
A América Latina ocupou outro bloco importante.
Trump apresentou a intervenção americana na Venezuela como demonstração do que poderá ocorrer quando seu governo identificar ameaças aos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental.
Segundo ele, as ações na Venezuela provam que Washington não permitirá que ameaças aos interesses americanos se estabeleçam na região.
“Se necessário, usaremos nosso poder militar incomparável para garantir os interesses nacionais vitais dos Estados Unidos”, afirmou.
A declaração ocorre meses depois da operação americana que capturou Nicolás Maduro em janeiro e o levou aos Estados Unidos para responder a acusações relacionadas ao narcotráfico. Desde então, Delcy Rodríguez assumiu o comando venezuelano e seu governo iniciou uma aproximação com Washington, inclusive em torno da exploração do petróleo do país.
Cuba: Trump diz que governo “vai cair”
Cuba também recebeu atenção direta.
Trump classificou o país como um Estado fracassado e afirmou que o governo comunista está submetido a forte pressão. Segundo ele, os Estados Unidos esperam uma “mudança radical” na ilha.
O presidente declarou que o secretário de Estado, Marco Rubio, está envolvido nas tratativas relacionadas ao país e afirmou que “a liberdade chegará a Cuba”.
Integrantes da delegação cubana deixaram o plenário durante o discurso.
Trump também acusou o governo cubano de manter relações com organizações e movimentos de esquerda dentro dos Estados Unidos. As acusações foram apresentadas pelo presidente como justificativa para o endurecimento da política americana em relação à ilha.
Cartéis comparados ao Estado Islâmico
O combate ao narcotráfico foi apresentado como uma questão de segurança nacional.
Trump comparou os cartéis latino-americanos ao Estado Islâmico e lembrou que sua administração classificou organizações criminosas como grupos terroristas estrangeiros.
Segundo ele, as Forças Armadas americanas vêm sendo empregadas contra essas organizações, inclusive em ataques a embarcações suspeitas de transportar drogas.
O presidente afirmou que integrantes dos cartéis deveriam ser mortos, expulsos ou tratados como combatentes inimigos. Também disse que operações americanas eliminaram 97% das drogas transportadas por rotas marítimas, dado apresentado por Trump sem detalhamento metodológico no pronunciamento.
O México foi citado como um dos principais centros da violência relacionada aos cartéis.
Imigração e soberania
Trump voltou a utilizar a Assembleia Geral para defender sua política migratória.
O presidente criticou organismos internacionais e governos que questionam as medidas adotadas pelos Estados Unidos na fronteira e afirmou que imigração ilegal não constitui um direito humano.
Para Trump, políticas de migração em massa colocam em risco a identidade cultural dos países.
“Não existe direito humano à imigração ilegal, mas existe o direito de continuar sendo uma nação soberana”, afirmou.
O tema foi relacionado à defesa de fronteiras nacionais e à rejeição do que Trump chamou de agenda “globalista”.
Inteligência artificial vira “superinteligência”
Um dos trechos mais incomuns do pronunciamento tratou da inteligência artificial.
Trump anunciou que seu governo pretende substituir a expressão “inteligência artificial” por “superinteligência”, argumentando que o termo “artificial” faz a tecnologia parecer falsa.
Segundo ele, documentos do governo americano passarão a utilizar a nova denominação. Não estava claro, imediatamente após o pronunciamento, se uma determinação formal já havia sido editada para efetivar a mudança.
O presidente também rejeitou propostas de regulamentação internacional da tecnologia.
Trump afirmou que os Estados Unidos não aceitarão um sistema global de controle sobre a inteligência artificial e disse que não pretende limitar o crescimento de uma indústria que considera potencialmente maior do que a Revolução Industrial.
Ele sustentou ainda que os Estados Unidos estão à frente da China na corrida tecnológica.
Ucrânia e promessa de acordo
Sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, Trump voltou a afirmar que trabalha para alcançar um acordo.
O presidente disse manter contato com as lideranças dos dois países e declarou acreditar que uma solução poderá surgir mais rapidamente do que muitos esperam.
“Vamos resolver isso”, afirmou.
A guerra começou em fevereiro de 2022 com a invasão russa da Ucrânia e permanece em andamento, apesar das sucessivas tentativas diplomáticas.
Após o discurso, Trump se reuniu com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e afirmou que estaria disposto a voltar a conversar pessoalmente com Vladimir Putin. Os Estados Unidos também discutem com Kiev a possibilidade de produção de interceptadores Patriot em território ucraniano.
Ataque ao Tribunal Penal Internacional
Trump dedicou parte do pronunciamento ao Tribunal Penal Internacional.
O presidente pediu que países integrantes do TPI abandonem a instituição e classificou o tribunal como uma organização fora de controle e contrária aos interesses americanos.
Os Estados Unidos não integram o Estatuto de Roma, tratado que criou o tribunal.
Trump afirmou que não aceitará que militares americanos sejam submetidos a processos que considera politicamente motivados.
Críticas à ONU e rejeição a “governo global”
Embora discursasse diante da Assembleia Geral, Trump também dirigiu críticas à própria estrutura multilateral.
Ele afirmou que a ONU possui grande potencial, mas deveria reduzir burocracia, gastos e influência de agendas que classificou como globalistas.
O presidente rejeitou qualquer proposta de imposto internacional.
“Não existe governo global e, enquanto eu for presidente, não haverá impostos globais”, declarou.
Trump também criticou organismos de direitos humanos das Nações Unidas por questionarem políticas americanas sobre imigração e outros temas internos.
A relação entre soberania e poder atravessou praticamente todo o pronunciamento. Ao falar de guerras, tecnologia, fronteiras, narcotráfico e organismos internacionais, Trump apresentou como princípio de sua política externa a liberdade dos Estados Unidos para agir quando sua administração considerar que os interesses do país estão ameaçados.


