Uma disputa envolvendo Donald Trump e uma das principais instituições culturais dos Estados Unidos ganhou novos contornos nesta semana. O presidente americano quer que seu nome seja incorporado ao Kennedy Center, tradicional complexo de artes de Washington criado como memorial ao ex-presidente John F. Kennedy, assassinado em 1963. Depois de ter a iniciativa barrada pela Justiça, Trump ameaçou suspender uma reforma de US$ 257 milhões e passou a admitir até a possibilidade de o prédio ser demolido.
O conflito se arrasta desde que Trump promoveu uma ampla mudança no comando do John F. Kennedy Center for the Performing Arts. Em fevereiro de 2025, ele afastou integrantes da direção, colocou aliados no conselho e acabou escolhido presidente do próprio conselho administrativo.
A instituição, inaugurada em 1971, leva o nome de Kennedy por decisão do Congresso americano. Além de abrigar espetáculos de música, teatro, dança e ópera, o complexo funciona oficialmente como um memorial nacional ao 35º presidente dos Estados Unidos.
Sob a nova administração, o nome de Trump chegou a ser colocado na fachada externa do prédio. A alteração provocou uma disputa judicial liderada, entre outros, pela deputada democrata Joyce Beatty, integrante do conselho por força do cargo.
Em maio deste ano, o juiz federal Christopher Cooper concluiu que o conselho não tinha autoridade para mudar o nome estabelecido pelo Congresso e determinou a retirada das letras. A inscrição com o nome de Trump acabou removida em junho.
A direção não desistiu. Em agosto, o conselho aprovou uma nova proposta para acrescentar uma inscrição à fachada. Uma das versões faria o prédio passar a exibir, junto ao nome oficial, a informação de que havia sido restaurado e reformado pelo presidente Donald J. Trump.
Também estava prevista a possibilidade de batizar a praça diante do complexo em homenagem a Trump e acrescentar outra inscrição caso um fundo destinado à instituição arrecadasse US$ 100 milhões.
Nesta terça-feira (15), porém, Cooper voltou a barrar a iniciativa. O magistrado considerou que as propostas contrariavam tanto sua decisão anterior quanto a legislação aprovada pelo Congresso.
Trump condiciona reforma ao próprio nome
A reação de Trump elevou a tensão. O Congresso americano destinou US$ 257 milhões para obras de recuperação do Kennedy Center, mas o presidente passou a vincular a realização da reforma ao reconhecimento de seu papel no projeto.
Trump afirmou que não pretende aplicar os recursos se não receber crédito pela recuperação do prédio. Ele também sustentou que o complexo enfrenta graves problemas estruturais e precisa de uma intervenção ampla.
A disputa avançou rapidamente. Pouco depois da nova decisão judicial, o conselho controlado por aliados de Trump votou pelo fechamento do Kennedy Center para reparos.
A administração da instituição informou que havia riscos à segurança decorrentes da deterioração estrutural. O diretor executivo Matt Floca citou problemas em uma cobertura do terraço e a queda parcial de material do teto como justificativas para a interrupção temporária das atividades.
A antiga direção contesta acusações feitas pela atual administração sobre a situação financeira do centro. Ex-dirigentes afirmam que as contas eram submetidas a auditorias independentes.
Trump foi além ao falar sobre o futuro do edifício.
Ao defender que sua administração receba reconhecimento pelas reformas, afirmou que, sem isso, o centro poderia acabar fechado e posteriormente “derrubado”. Na sexta-feira (18), questionado diretamente sobre a possibilidade de demolir o Kennedy Center, o presidente não descartou a hipótese.
A preocupação aumentou depois que uma fotografia mostrou Trump, a bordo do Air Force One, observando um documento no qual apareciam as palavras “Kennedy Center” e uma referência a demolição. A imagem passou a integrar os argumentos apresentados por grupos que tentam impedir mudanças irreversíveis no complexo.
Justiça impõe barreira contra eventual demolição
A escalada levou novamente o caso à Justiça. Na quinta-feira (17), o juiz Christopher Cooper determinou que o governo e a administração do Kennedy Center deverão comunicar com pelo menos 30 dias de antecedência qualquer iniciativa para demolir o edifício ou realizar alterações físicas de grande porte.
A decisão não significa que exista neste momento uma ordem formal de demolição. Ela cria uma proteção judicial para impedir que uma medida desse porte seja executada sem tempo para contestação nos tribunais.
O magistrado também determinou esclarecimentos sobre o fechamento do complexo. A administração informou que a interrupção emergencial inicialmente prevista seria de pelo menos sete dias, período destinado à avaliação das condições estruturais.
A disputa envolve ainda uma questão jurídica central: o nome do Kennedy Center foi estabelecido pelo Congresso. Nas decisões tomadas até agora, Cooper sustentou que o conselho administrativo e o presidente não podem modificar unilateralmente essa denominação.
Protesto cerca Kennedy Center
A ameaça de demolição levou milhares de pessoas às proximidades do complexo nesta sexta-feira. Manifestantes formaram uma corrente humana ao redor do Kennedy Center durante um ato organizado pelo movimento Hands Off the Arts.
Artistas, moradores e defensores da preservação do prédio protestaram contra o fechamento e as tentativas de incorporar o nome de Trump à instituição. Parte dos manifestantes também pediu que o presidente seja retirado da presidência do conselho.
A cantora e atriz Barbra Streisand, homenageada pelo Kennedy Center em 2008, também criticou publicamente a disputa. Ela afirmou que é doloroso assistir à instituição ser transformada em palco de um conflito envolvendo o nome do presidente.
Até parlamentares republicanos demonstraram preocupação com uma eventual demolição. O líder da maioria no Senado, John Thune, disse que ficaria surpreso caso a ameaça realmente fosse concretizada e afirmou esperar que a disputa não chegue a esse ponto.
O Kennedy Center permanece no centro da batalha judicial. Além da discussão sobre o nome e das condições do edifício, os tribunais agora acompanham o fechamento da instituição e qualquer iniciativa que possa resultar em mudanças permanentes no complexo.


