Uma caminhonete descaracterizada carregada de colchões foi registrada deixando o pátio da Secretaria Municipal de Assistência Social de Itabira na terça-feira (8). A movimentação chamou atenção pela ausência de identificação do veículo e provocou questionamentos sobre quem realizava o transporte e para onde o material pertencente ao município estava sendo levado.
O caso ganhou repercussão após a divulgação de um vídeo pelo influenciador digital e candidato a deputado estadual Frank Solico, conhecido em Itabira por fiscalizar órgãos públicos, realizar protestos e publicar denúncias envolvendo a Prefeitura, a Câmara Municipal e autarquias.
A circulação das imagens, em pleno período eleitoral, também levantou suspeitas nas redes sociais sobre uma possível utilização dos colchões para distribuição a eleitores ou em benefício de candidaturas apoiadas pelo grupo político do prefeito Marco Antônio Lage (PSB). Até o momento, no entanto, não há comprovação de que o material tenha sido destinado a eleitores ou utilizado por qualquer campanha eleitoral.
A secretária municipal de Assistência Social, Nélia Cunha, respondeu diretamente à publicação de Solico. “O senhor deveria apurar antes de divulgar mentiras. Trata-se apenas de transferência de itens para o almoxarifado”, escreveu.
A declaração apresentou uma versão para a movimentação, mas deixou sem resposta questões relacionadas ao transporte. Na mesma publicação, O Folha de Minas perguntou à secretária por que uma caminhonete descaracterizada estava sendo utilizada, a quem pertencia o veículo e para onde exatamente os colchões estavam sendo levados. Nélia não respondeu aos questionamentos.
O Folha de Minas recebeu a informação de que a caminhonete seria um veículo particular. A reportagem, porém, não obteve até o momento documento que permita confirmar a propriedade do veículo ou verificar se existe contrato, autorização ou qualquer outro vínculo que justifique sua utilização para transportar bens da administração municipal.
Também não foram apresentados documentos que demonstrem a movimentação dos colchões, como registro de saída, quantidade transportada, identificação do almoxarifado de destino ou comprovante de recebimento do material.
E-mails do jornal são rejeitados pelo sistema municipal
A busca por esclarecimentos oficiais enfrenta ainda uma situação que O Folha de Minas vem documentando ao longo deste ano: mensagens enviadas pelo endereço eletrônico da Redação são rejeitadas pelo sistema de e-mails da Prefeitura de Itabira.
Em 7 de janeiro de 2026, uma mensagem encaminhada por redacao@ofolhademinas.com.br para um endereço funcional do domínio itabira.mg.gov.br, com questionamentos sobre o sistema ambiental do Projeto Rio Tanque, foi devolvida pelo servidor municipal. O relatório registrou o código 554 / 5.7.1 acompanhado da informação “Endereço do remetente rejeitado: Acesso negado”.
A situação voltou a ocorrer em 12 de maio, desta vez em uma tentativa de contato com o endereço da Assessoria de Comunicação Social da Prefeitura. O e-mail também foi recusado, com o mesmo código e a mesma indicação de acesso negado ao remetente.

Os registros foram produzidos em datas diferentes e envolvem destinatários distintos dentro do domínio oficial itabira.mg.gov.br, indicando que a rejeição está relacionada ao endereço eletrônico da Redação.
O Folha de Minas passou a perceber o bloqueio após publicar uma matéria que apurou o uso de uma jurisprudência falsa em documento oficial encaminhado pelo prefeito Marco Antônio Lage à Câmara Municipal, no contexto de medidas contra o vereador Luiz Carlos de Ipoema.
Entre os fundamentos jurídicos apresentados no documento estava uma suposta decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais vinculada ao processo nº 1.0000.21.001234-5/001. Além da numeração posteriormente não localizada pelo Tribunal, a decisão era atribuída a um suposto “Desembargador Fulano de Tal”, expressão genérica que constava no documento apresentado como fundamentação jurídica.
Na ocasião, O Folha de Minas procurou diretamente o TJMG para verificar a autenticidade da referência. O Tribunal informou que a numeração atribuída ao processo não havia sido localizado em sua base de dados. Posteriormente, Marco Lage encaminhou outro ofício à Câmara, alegou a ocorrência de “erro material” e substituiu a fundamentação utilizada anteriormente.
Um servidor da Prefeitura ouvido por O Folha de Minas, sob condição de anonimato, afirmou que a determinação para bloquear o endereço eletrônico da Redação teria partido do próprio prefeito Marco Antônio Lage, que também é jornalista. O jornal preserva a identidade da fonte em razão do pedido de sigilo. A reportagem, entretanto, não teve acesso a documento ou ordem administrativa que permita comprovar a autoria da determinação.
A consequência objetiva do bloqueio está documentada: tentativas de O Folha de Minas de encaminhar questionamentos a endereços institucionais da administração são recusadas pelo servidor de e-mails do município. No episódio envolvendo os colchões, o jornal recorreu à própria publicação em que a secretária de Assistência Social se manifestava para tentar obter os esclarecimentos.
Permanecem sem resposta três questões centrais: a quem pertence a caminhonete, sob qual autorização o veículo foi utilizado para transportar o material e qual foi o destino exato dos colchões.
O espaço permanece aberto para manifestação da Prefeitura de Itabira, da Secretaria Municipal de Assistência Social e do prefeito Marco Antônio Lage. Os canais de O Folha de Minas estão disponíveis para o envio de esclarecimentos e documentos.


