O Pix poderá, no futuro, ser utilizado de forma integrada a sistemas oficiais de pagamentos instantâneos de outros países. O Banco Central (BC) estuda modelos para permitir a realização de transferências internacionais e pagamentos entre diferentes moedas de maneira rápida e com custos menores.
A possibilidade faz parte da agenda de evolução do sistema apresentada nesta segunda-feira (10) no Relatório de Gestão do Pix 2023-2025.
Segundo o Banco Central, estão sendo avaliadas tanto conexões diretas com sistemas de determinados países quanto a participação do Brasil em estruturas multilaterais capazes de integrar diferentes plataformas de pagamentos instantâneos.
“Estão em discussão tanto interligações bilaterais como a participação em hubs multilaterais”, informou o BC.
Na prática, uma eventual integração poderia permitir que uma pessoa no Brasil enviasse dinheiro para outro país por meio de uma estrutura conectada ao Pix e o destinatário recebesse os recursos em sua própria moeda.
De acordo com o Banco Central, essas operações poderiam ser concluídas em poucos segundos.
Pix internacional ainda está em estudo
Apesar das possibilidades apresentadas, a integração internacional ainda não está disponível como uma funcionalidade oficial do Pix.
O Banco Central informou que acompanha modelos de transações internacionais envolvendo o Pix que vêm sendo desenvolvidos por empresas brasileiras e estrangeiras, ao mesmo tempo em que avalia alternativas para uma integração entre sistemas oficiais.
A internacionalização poderia reduzir custos relacionados às remessas de dinheiro para outros países e ampliar o acesso da população a pagamentos internacionais.
Atualmente, transferências internacionais normalmente envolvem instituições intermediárias, conversão de moedas e diferentes tarifas.
A integração de sistemas de pagamentos instantâneos busca diminuir parte dessa complexidade.
Pix poderá funcionar sem internet
Outra possibilidade estudada pelo Banco Central é permitir pagamentos por aproximação mesmo quando o usuário estiver sem conexão com a internet.
O chamado Pix offline pretende ampliar as situações em que o sistema pode ser utilizado, principalmente em locais com conexão limitada ou instável.
O BC também pretende ampliar a utilização do Pix Automático como alternativa ao tradicional débito em conta.
A modalidade permite programar pagamentos recorrentes, como mensalidades e cobranças periódicas, por meio da infraestrutura do Pix.
Recebimentos futuros poderão virar garantia de empréstimos
Outra frente estudada envolve a integração do Pix ao mercado de crédito.
O Banco Central avalia permitir que empresas utilizem seus recebimentos futuros pelo Pix como garantia para operações de financiamento.
A lógica se aproxima de mecanismos já existentes em outros meios de pagamento, nos quais receitas futuras podem ajudar uma empresa a conseguir melhores condições para contratar crédito.
Segundo o BC, a utilização dos “fluxos futuros de Pix” poderá melhorar a qualidade das garantias apresentadas às instituições financeiras e contribuir para a redução dos juros, principalmente para empresas que recebem parcela significativa de suas vendas pelo sistema.
BC quer reforçar combate às fraudes
A expansão das funcionalidades será acompanhada de mudanças na segurança.
O Banco Central prevê oito medidas para aprimorar a prevenção e o combate às fraudes envolvendo o Pix.
Uma delas é estabelecer critérios mínimos e objetivos para que determinadas operações sejam consideradas suspeitas.
Atualmente, cada instituição financeira adota suas próprias políticas. Para o BC, essa diferença pode fazer com que operações que mereceriam uma análise adicional sejam autorizadas sem avaliação mais cuidadosa.
O Banco Central cita como exemplo transferências de valores elevados realizadas fora do horário comercial.
Inteligência artificial para calcular risco de fraude
Entre as mudanças mais relevantes está a criação de um indicador de “probabilidade de fraude no Pix”.
A proposta é que o Banco Central calcule o risco em tempo real para as transações realizadas pelo sistema.
O indicador será desenvolvido utilizando um modelo de machine learning, tecnologia relacionada à Inteligência Artificial, e poderá ser disponibilizado às instituições participantes para alimentar seus sistemas de prevenção a fraudes.
Também estão previstas a padronização de alertas de fraude e uma comunicação mais rápida entre instituições financeiras quando houver necessidade de bloqueio cautelar de uma operação suspeita.
O objetivo é permitir que bancos e demais participantes troquem informações de forma automatizada para aumentar a capacidade de identificar movimentações fraudulentas.
Mensagens pelo Pix também estão na mira do BC
O campo destinado a mensagens nas transferências também poderá passar por mudanças.
Segundo o Banco Central, a ferramenta, criada originalmente para permitir a inclusão de informações relacionadas à transação, passou a ser utilizada em alguns casos para enviar ofensas, ameaças e intimidações.
Uma prática identificada envolve transferências de valores muito pequenos feitas apenas para possibilitar o envio das mensagens.
Um grupo de trabalho foi criado para analisar o problema e propor alternativas.
Depois dessa avaliação, o BC poderá adotar medidas regulatórias para restringir o uso inadequado da ferramenta.
Pix no centro de disputa com os Estados Unidos
Os planos de expansão do Pix surgem em um momento no qual o sistema brasileiro também ganhou dimensão internacional por razões políticas e comerciais.
O mecanismo entrou nas discussões entre Brasil e Estados Unidos em meio às medidas comerciais adotadas pelo governo norte-americano contra produtos brasileiros.
Washington incluiu aspectos relacionados aos serviços de pagamentos eletrônicos brasileiros entre as práticas comerciais que passaram a ser questionadas.
O governo brasileiro rejeita a interpretação de que o Pix represente uma prática comercial desleal.
Criado pelo Banco Central e lançado em 2020, o sistema mudou profundamente a maneira como os brasileiros realizam pagamentos e transferências, reduzindo a utilização de outros instrumentos e aumentando a competição no setor financeiro.
Agora, com os estudos sobre conexões internacionais, pagamentos offline, utilização de recebimentos como garantia de crédito e novos sistemas antifraude, o Banco Central prepara uma nova etapa de expansão do Pix.
A maioria dessas funcionalidades, entretanto, ainda está em desenvolvimento ou avaliação e não possui cronograma definitivo para chegar aos usuários.


