Depois de uma sequência de anúncios, recuos, pedidos de desculpas e divergências públicas com a direção do próprio partido, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) conseguiu finalmente o aval da legenda para disputar o Governo de Minas Gerais nas eleições de 2026.
A decisão encerra, ao menos por enquanto, uma das novelas mais movimentadas da pré-campanha mineira. O Republicanos decidiu liberar a candidatura depois de Cleitinho se desculpar formalmente pela maneira como conduziu o processo e assumir o compromisso de permanecer na disputa até o fim.
A exigência não é um detalhe. Ela revela o nível de desgaste provocado pelas sucessivas mudanças de posição do senador, que chegou a liderar as pesquisas de intenção de voto para o Palácio Tiradentes, mas deixou aliados e dirigentes partidários sem saber, durante semanas, se realmente pretendia trocar os quatro anos restantes de seu mandato no Senado pelo desafio de comandar Minas Gerais.
Do choro à nova tentativa de candidatura
O capítulo mais emblemático ocorreu nesta semana.
Na segunda-feira (3), Cleitinho apareceu em um vídeo ao lado do presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira. Emocionado e chorando, pediu perdão ao partido e aos mineiros e anunciou que não disputaria o Governo de Minas.
O senador afirmou que não tinha condições emocionais de enfrentar uma campanha eleitoral, especialmente após a morte recente do irmão Matheus Azevedo, vítima de leucemia. O episódio pessoal também havia sido apresentado por Cleitinho como justificativa para sua ausência na convenção estadual do Republicanos.
Parecia ser o encerramento definitivo da discussão.
Durou um dia.
Na terça-feira (4), Cleitinho compareceu à convenção nacional do Republicanos, em Brasília, subiu ao palco e voltou atrás. Diante de Marcos Pereira e de dirigentes da legenda, pediu publicamente a oportunidade de disputar o Palácio Tiradentes.
“Eu quero ser candidato a governador e eu peço humildemente ao presidente: me dê essa vaga”, declarou.
Cleitinho prometeu não decepcionar o Republicanos e justificou a nova mudança afirmando ter recebido uma mensagem divina. Segundo ele, Deus, por meio do Espírito Santo, havia indicado que deveria disputar a eleição.
A resposta de Marcos Pereira evidenciou o desgaste.
O dirigente lembrou que Cleitinho tivera oportunidades anteriores para assumir formalmente a candidatura, inclusive comparecendo à convenção estadual ou enviando uma procuração, mas não o fez. Em tom de ironia, respondeu à justificativa religiosa dizendo que, diferentemente do senador, Deus ainda não havia falado com ele sobre a candidatura.
Naquele momento, o pedido foi negado.
Partido já havia cobrado decisão de Cleitinho
A tensão não surgiu apenas nesta semana.
Cleitinho faltou à convenção estadual do Republicanos, realizada em 25 de julho, justamente quando a legenda esperava uma definição sobre a disputa pelo Governo de Minas. Diante da ausência, o partido homologou as candidaturas proporcionais e delegou à direção estadual as decisões sobre a chapa majoritária.
Dias depois, as executivas estadual e nacional divulgaram uma dura nota praticamente encerrando a possibilidade de candidatura.
O Republicanos afirmou que havia trabalhado para viabilizar o projeto eleitoral, mas que faltara uma manifestação definitiva do próprio senador.
“O que faltou foi a decisão inequívoca de quem deveria ser, em primeiro lugar, candidato de si mesmo”, afirmou a legenda.
Cleitinho reagiu, declarou que continuava querendo concorrer e iniciou uma ofensiva para convencer a direção nacional a rever a posição.
A sucessão de episódios elevou a temperatura da relação com Marcos Pereira. O presidente nacional passou a cobrar não apenas uma decisão, mas garantias de que uma eventual candidatura não seria abandonada novamente durante a campanha.
Cleitinho reaparece ao lado de Marcelo Aro
A nova fase ganhou outro componente político nesta sexta-feira (7), quando Cleitinho apareceu ao lado do ex-secretário de Governo Marcelo Aro (PP), agora candidato ao Senado.
A cena chama atenção quando comparada ao confronto protagonizado pelos dois nas eleições de 2022. Naquele ano, Cleitinho e Aro eram adversários diretos na disputa pela única vaga de Minas Gerais no Senado e trocaram acusações públicas durante a campanha.
Nos últimos dias antes da votação, o embate atingiu seu ponto mais agressivo. Em um vídeo publicado nas redes sociais, Cleitinho apareceu exaltado e chamou Marcelo Aro de “canalha” e “covarde”. O então candidato do PSC acusava o adversário de utilizar robôs, impulsionamento de publicações, edição de suas falas e informações falsas para atacá-lo.
A família de Cleitinho também entrou no confronto. Ao reagir às acusações que atribuía ao adversário, o então deputado estadual disparou: “Quem é você para falar da minha família, seu canalha”.
Durante a gravação, Cleitinho exibiu documentos, pesquisas e publicações que, segundo ele, sustentariam suas críticas. Marcelo Aro negou as acusações e levou o caso à Justiça Eleitoral. No mesmo dia, uma decisão determinou a retirada do vídeo das redes sociais após a defesa do progressista alegar que a publicação continha informações falsas e conteúdo ofensivo.
Quatro anos depois, o cenário é completamente diferente.
Cleitinho agora aparece ao lado do homem que chamou publicamente de “canalha” e “covarde” e declara apoio à candidatura de Marcelo Aro ao Senado.
A aproximação entre antigos adversários já vinha sendo construída nos últimos meses, mas ganha peso político justamente no momento em que Cleitinho finalmente consegue autorização do Republicanos para disputar o Governo de Minas.
A composição também produz uma contradição que deverá acompanhar a campanha. Cleitinho mantém um discurso fortemente crítico à administração estadual, principalmente em áreas como infraestrutura, enquanto Marcelo Aro integrou durante anos o núcleo político do mesmo governo que agora é alvo dessas críticas.
Aro comandou a Secretaria de Estado de Governo e permaneceu como um dos principais articuladores políticos da administração estadual até deixar o Executivo neste ano para disputar as eleições.
Assim, a campanha reúne agora dois políticos que, além de terem sido adversários ferozes quatro anos atrás, terão de conciliar discursos distintos sobre um governo do qual Aro participou diretamente e que Cleitinho pretende apresentar ao eleitor como incapaz de resolver problemas importantes de Minas Gerais.
Candidatura liberada, mas desconfiança permanece
Ao liberar Cleitinho para concorrer, o Republicanos tenta encerrar uma crise que ultrapassou as fronteiras de Minas e chegou à direção nacional da legenda.
O senador pediu desculpas pelo comportamento adotado durante o processo e agora terá de demonstrar que a decisão desta vez é definitiva.
Esse talvez seja o primeiro desafio de sua campanha.
Depois de anunciar que seria candidato, faltar à convenção estadual, dizer que não disputaria, gravar vídeo chorando, pedir perdão, voltar atrás no dia seguinte, invocar uma mensagem recebida do Espírito Santo, ter o pedido inicialmente rejeitado e finalmente conseguir autorização da legenda, a confirmação partidária não elimina completamente a dúvida criada pelas próprias movimentações do senador.
O compromisso cobrado pela direção nacional é justamente o de que, uma vez candidato, Cleitinho permaneça candidato.
Politicamente, portanto, o Republicanos lhe devolveu a legenda. Agora, caberá ao senador mostrar que a decisão tomada desta vez sobreviverá até outubro.
Somente o registro da candidatura e, principalmente, a permanência de Cleitinho na disputa ao longo da campanha permitirão transformar a sequência de anúncios das últimas semanas em uma candidatura efetivamente consolidada.


