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Home Cultura e Entretenimento

9 de Julho: a Revolução Constitucionalista entre a memória paulista e o debate histórico

Mais do que um feriado estadual, a data relembra um dos episódios mais marcantes da história política brasileira, cuja interpretação ainda divide historiadores mais de nove décadas depois

Por Redação
9 de julho de 2026 - 12:07
em Cultura e Entretenimento
9 de Julho: a Revolução Constitucionalista entre a memória paulista e o debate histórico

Protestos ocorridos em 23 de maio de 1932. - Wikimedia Commons/ Divulgação

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Todos os anos, o dia 9 de julho transforma São Paulo no único estado brasileiro a celebrar um feriado cívico próprio. A data marca o início da Revolução Constitucionalista de 1932, movimento armado liderado por setores das elites paulistas contra o governo provisório de Getúlio Vargas.

Para muitos paulistas, o episódio simboliza a defesa da Constituição e da democracia. Para parte significativa da historiografia contemporânea, porém, essa narrativa merece ser analisada com mais cautela. Novos estudos apontam que o conflito foi resultado de uma combinação de interesses políticos, econômicos e regionais, muito além da versão tradicional ensinada durante décadas.

O Brasil vivia uma ruptura política

A origem da revolução remonta à crise que abalou o país no início da década de 1930.

A quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, provocou uma forte retração na economia mundial e atingiu diretamente o setor cafeeiro, principal base econômica paulista. Ao mesmo tempo, a chamada Revolução de 1930 colocou fim à chamada “Política do Café com Leite”, sistema que alternava o poder entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais.

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Com a deposição do presidente Washington Luís antes da posse de Júlio Prestes, apoiado pelas elites paulistas, Vargas assumiu um governo provisório e passou a nomear interventores federais para administrar os estados. A perda de influência política de São Paulo ampliou a tensão entre o governo central e as lideranças locais.

O estopim veio antes de 9 de julho

Embora o movimento tenha começado oficialmente em 9 de julho de 1932, o clima de confronto já tomava conta das ruas paulistas meses antes.

Em 23 de maio daquele ano, uma manifestação terminou em confronto na Praça da República, em São Paulo. Durante o episódio, quatro jovens morreram: Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Antônio Américo de Camargo Andrade e, dias depois, Dráusio Marcondes de Sousa.

As iniciais de seus sobrenomes deram origem ao símbolo MMDC, que se transformaria no principal emblema da Revolução Constitucionalista e permanece até hoje associado à memória do movimento.

Três meses de guerra

Em 9 de julho, tropas paulistas iniciaram o levante armado contra o governo federal.

A expectativa era contar com o apoio de outros estados insatisfeitos com Vargas, o que acabou não acontecendo. Isoladas militarmente, as forças paulistas enfrentaram o Exército brasileiro durante quase três meses.

Em 2 de outubro de 1932, São Paulo se rendeu. Militarmente, o movimento foi derrotado.

Ainda assim, seus defensores sustentam que a pressão exercida pelos paulistas contribuiu para acelerar a convocação da Assembleia Constituinte, culminando na promulgação da Constituição de 1934. Historiadores, contudo, lembram que o processo de constitucionalização já havia sido iniciado pelo governo Vargas meses antes do início da revolução, o que relativiza essa relação de causa e efeito.

Um símbolo construído ao longo das décadas

Mais de 90 anos depois, a Revolução Constitucionalista continua sendo objeto de intenso debate acadêmico.

Pesquisadores apontam que a imagem do movimento como uma “luta pela democracia” foi sendo fortalecida principalmente a partir da década de 1950, quando São Paulo vivia um período de rápida expansão urbana e econômica. A narrativa da “derrota militar e vitória moral” passou a integrar a identidade paulista e ganhou espaço em monumentos, livros didáticos e comemorações oficiais.

Ao mesmo tempo, estudos recentes destacam que o movimento também reunia interesses de cafeicultores, industriais e grupos políticos contrários às transformações promovidas pelo governo Vargas, como a ampliação da legislação trabalhista e a reorganização do Estado brasileiro.

Para esses pesquisadores, reduzir a Revolução Constitucionalista apenas à defesa da democracia simplifica um processo histórico muito mais complexo, marcado por disputas de poder, interesses econômicos e diferentes projetos para o país.

O feriado nasceu apenas em 1997

Embora a Revolução Constitucionalista tenha ocorrido em 1932, o dia 9 de julho só se tornou feriado estadual 65 anos depois, durante o governo de Mário Covas.

A oficialização consolidou uma memória que já estava presente em avenidas, monumentos, museus e instituições paulistas, reforçando a data como um dos principais símbolos da identidade regional.

Uma história que continua em discussão

Passadas mais de nove décadas, a Revolução Constitucionalista permanece viva não apenas nas homenagens anuais, mas também nas salas de aula, universidades e centros de pesquisa.

Entre a celebração cívica e a revisão historiográfica, o 9 de julho continua sendo um convite para refletir sobre a formação política do Brasil, o papel das elites regionais e a forma como a memória coletiva é construída ao longo do tempo.

Tags: 9 de JulhoCulturaGetúlio Vargashistória do BrasilMMDCpolíticaRevolução ConstitucionalistaSão Paulo
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