Há monumentos que passam despercebidos. Outros, no entanto, tornam-se parte da rotina da cidade, quase como velhos conhecidos. Em Belo Horizonte, poucos representam tão bem essa relação quanto a escultura de Roberto Drummond, que voltou nesta terça-feira (8) à Praça Diogo de Vasconcelos, na Savassi, depois de passar por um processo de restauração.
Durante os meses em que esteve ausente, muita gente sentiu falta do velho cronista de bronze. Afinal, não era apenas uma estátua que havia desaparecido da praça. Era um dos cenários mais fotografados de Belo Horizonte, ponto de encontro de leitores, turistas e moradores que, por alguns instantes, paravam ao lado do escritor para uma conversa silenciosa.
A obra havia sido retirada após sofrer um ato de vandalismo que danificou sua estrutura. Agora, restaurada pelo artista plástico Léo Santana, responsável pela criação original da escultura, ela recupera sua forma e volta a ocupar um dos espaços mais simbólicos da capital mineira.
Muito além de “Hilda Furacão”
Falar de Roberto Drummond é falar de uma Belo Horizonte que mistura literatura, futebol, bares, política e personagens que parecem caminhar entre a realidade e a ficção.
Nascido em Ferros, na Região Central de Minas Gerais, em 1933, o escritor construiu boa parte de sua trajetória na capital. Jornalista por formação, transformou o cotidiano mineiro em matéria-prima para romances, contos e crônicas marcados pelo humor, pela ironia e por uma escrita profundamente brasileira.
Seu livro mais conhecido, Hilda Furacão, eternizou a história da jovem da alta sociedade que abandona a vida confortável para se tornar prostituta na zona boêmia de Belo Horizonte durante os anos 1950. Décadas depois, a obra ganharia projeção nacional ao ser adaptada para a televisão pela TV Globo, tornando Roberto Drummond conhecido por milhões de brasileiros.
Mas sua produção literária vai muito além desse clássico. Livros como Sangue de Coca-Cola, Ontem à Noite Era Sexta-Feira, Quando Fui Morto em Cuba e Os Mortos Não Dançam Valsa consolidaram um estilo único, em que o fantástico convive naturalmente com o cotidiano das ruas de Minas.
O escritor que continua sentado na praça
A escultura instalada na Savassi nunca foi apenas um monumento.
Diferentemente das estátuas tradicionais erguidas sobre pedestais, Roberto Drummond permanece na mesma altura de quem passa pela praça. A proposta convida o público a fazer exatamente aquilo que seus livros sempre fizeram: aproximar o escritor das pessoas.
Ao longo dos anos, milhares de fotografias foram registradas ao lado da obra. Crianças, estudantes, casais, turistas e leitores transformaram o local em uma parada obrigatória para quem percorre a região.
Esse caráter afetivo talvez explique por que o vandalismo contra a escultura provocou tanta repercussão entre os belo-horizontinos. A sensação era de que a cidade havia perdido, ainda que temporariamente, um velho amigo.
Uma cidade também é feita de suas histórias
Em uma época em que tantas referências urbanas desaparecem silenciosamente, o retorno de Roberto Drummond à Savassi representa mais do que a recuperação de uma obra de arte.
É o reencontro de Belo Horizonte com um de seus narradores mais importantes. Um escritor que ajudou a transformar a cidade em personagem de romances, eternizou seus bares, suas ruas e seus personagens e mostrou que a literatura também pode ocupar praças, bancos e esquinas.
Agora, quem passar pela Praça Diogo de Vasconcelos poderá, novamente, parar ao lado do cronista. Talvez para uma fotografia. Talvez para lembrar de uma passagem de Hilda Furacão. Ou simplesmente para perceber que algumas histórias continuam vivas, mesmo quando escritas em bronze.


