Cinco dias após os terremotos que devastaram o norte da Venezuela, as autoridades elevaram para 1.450 o número de mortos confirmados na tragédia, enquanto as operações de busca entram em uma fase considerada decisiva pelas equipes de resgate. Mais de 3.150 pessoas ficaram feridas e dezenas de milhares continuam desaparecidas ou sem contato com familiares.
Os dois terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, ocorreram na última quarta-feira (24), com apenas 39 segundos de intervalo, atingindo principalmente o estado costeiro de La Guaira e provocando destruição também em Caracas e outras cidades do país. Especialistas classificaram o fenômeno como um “dupleto sísmico”, evento raro em que dois grandes abalos ocorrem praticamente de forma simultânea, ampliando significativamente o potencial de destruição.
Embora o período considerado mais favorável para localizar sobreviventes soterrados já tenha sido ultrapassado, equipes de resgate continuam registrando salvamentos que renovam a esperança entre familiares das vítimas.
No domingo, um pai e seu filho foram retirados com vida dos escombros de um edifício em Caraballeda, após permanecerem soterrados por cerca de quatro dias. A operação mobilizou socorristas venezuelanos e equipes internacionais e durou aproximadamente 12 horas. Um dia antes, uma mulher e um bebê de nove meses também haviam sido encontrados vivos sob os destroços de outro prédio.
La Guaira concentra a maior devastação
A região de La Guaira permanece como o principal cenário da tragédia. Segundo o balanço oficial, 774 edifícios sofreram danos severos, dos quais 189 desabaram completamente. Bairros inteiros foram reduzidos a escombros e milhares de moradores permanecem desalojados.
Além dos danos estruturais, o terremoto comprometeu serviços essenciais. Embora parte do fornecimento de energia elétrica já tenha sido restabelecida, muitas localidades continuam enfrentando dificuldades no abastecimento de água, nas comunicações e no acesso a serviços de saúde.
A Organização Internacional para as Migrações estima que milhões de venezuelanos tenham sido afetados direta ou indiretamente pelo desastre, aumentando a necessidade de alimentos, medicamentos, água potável e abrigos temporários.
Ajuda internacional cresce
O esforço humanitário ganhou reforço nos últimos dias com a chegada de equipes especializadas de diversos países. Segundo o governo venezuelano, mais de 2.700 profissionais de busca e salvamento atuam nas áreas atingidas, acompanhados de dezenas de cães farejadores e centenas de toneladas de equipamentos e suprimentos enviados por 24 países.
A China anunciou uma ajuda emergencial equivalente a cerca de US$ 14,7 milhões, além do compartilhamento de imagens de satélite para auxiliar na identificação das áreas mais afetadas. Estados Unidos, França, México, Colômbia, El Salvador e outros países também enviaram equipes especializadas para atuar nas operações de resgate.
Crescem críticas à resposta do governo
Enquanto as buscas prosseguem, moradores das regiões atingidas passaram a cobrar maior rapidez na resposta das autoridades. Em algumas cidades foram registrados protestos e episódios de saques a supermercados, farmácias e estabelecimentos comerciais, reflexo da escassez de alimentos e da demora na chegada da assistência.
Especialistas também defendem uma ampla revisão das condições estruturais dos conjuntos habitacionais construídos pelo Estado venezuelano nas últimas décadas. Engenheiros apontam indícios de falhas construtivas, deficiência na fiscalização e ausência de manutenção como fatores que podem ter agravado os efeitos dos terremotos em diversos edifícios públicos e residenciais.
Brasil prepara apoio
Em meio à mobilização internacional, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou o envio do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, à Venezuela para avaliar de que forma o Brasil poderá colaborar nas ações humanitárias.
A missão deverá identificar as necessidades mais urgentes do país vizinho e definir a eventual participação das Forças Armadas brasileiras no envio de equipamentos, logística e apoio às operações de resgate e assistência às vítimas.




