A disputa pela Presidência do Peru permanece indefinida após mais de 98% das urnas terem sido apuradas. A candidata conservadora Keiko Fujimori aparece numericamente à frente do esquerdista Roberto Sánchez, mas a vantagem é tão estreita que o resultado final segue em aberto.
Dados divulgados pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) mostram Keiko com pouco mais de 50% dos votos válidos, enquanto Sánchez aparece logo atrás, separado por uma margem de apenas alguns milhares de votos em um universo superior a 18 milhões de eleitores.
A apuração, uma das mais apertadas da história recente do país, tem sido marcada por sucessivas mudanças na liderança desde o fechamento das urnas no último domingo.
Votos do exterior mudaram cenário
Nos primeiros dias de contagem, Roberto Sánchez chegou a liderar impulsionado pelos votos das regiões rurais e andinas, onde possui forte apoio popular. No entanto, a entrada dos votos de peruanos residentes no exterior alterou o cenário.
Keiko Fujimori tem desempenho significativamente melhor entre os eleitores que vivem fora do país, especialmente nos Estados Unidos, Espanha, Argentina e Japão. A contabilização dessas atas permitiu que a candidata retomasse a liderança na reta final da apuração.
Apesar disso, especialistas evitam apontar um vencedor. Ainda restam atas sob análise da Justiça Eleitoral peruana, além de recursos protocolados pelas duas campanhas.
Resultado pode demorar semanas
Ao contrário de muitos países da região, o Peru utiliza predominantemente cédulas físicas. Em diversas localidades remotas da Cordilheira dos Andes e da Amazônia peruana, o transporte do material eleitoral depende de longos deslocamentos por rios, estradas precárias e até animais de carga.
Além das dificuldades logísticas, cerca de 1.600 atas eleitorais seguem sob revisão do Júri Nacional de Eleições (JNE), órgão responsável por analisar questionamentos e recursos apresentados pelos candidatos. O processo pode se estender por semanas antes da proclamação oficial do vencedor.
País chega à eleição após anos de instabilidade
A disputa ocorre em um momento delicado para a política peruana. Nos últimos anos, o país enfrentou uma sucessão de crises institucionais, trocas de presidentes, denúncias de corrupção e conflitos entre Executivo e Congresso.
Desde 2016, o Peru já teve diversos presidentes, alguns afastados, investigados ou presos. O cenário contribuiu para o desgaste da classe política tradicional e alimentou a polarização observada nesta eleição.
Quem são os candidatos
Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, Keiko disputa a Presidência pela quarta vez. Líder do partido Força Popular, ela defende políticas econômicas liberais, endurecimento do combate à criminalidade e maior aproximação com o setor empresarial. Sua trajetória, porém, continua associada ao legado controverso do fujimorismo, movimento político que divide opiniões no país.
Já Roberto Sánchez construiu sua campanha apoiado em setores populares, sindicatos e regiões do interior peruano. Ex-ministro do governo de Pedro Castillo, ele defende reformas estruturais, maior presença do Estado na economia e mudanças constitucionais voltadas à redução das desigualdades sociais.
Mercados e comunidade internacional acompanham disputa
A indefinição eleitoral tem sido acompanhada de perto por investidores e governos da região. Analistas avaliam que uma vitória de Keiko Fujimori tende a ser recebida de forma mais positiva pelo mercado financeiro, enquanto um eventual governo de Sánchez poderia representar mudanças mais profundas na política econômica peruana.
Enquanto a contagem prossegue, o país segue dividido entre dois projetos políticos distintos, aguardando um desfecho que pode influenciar não apenas o futuro do Peru, mas também o equilíbrio político da América do Sul.






