A ofensiva comercial dos Estados Unidos contra o Brasil ganhou um novo capítulo nesta terça-feira (2). O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) propôs a aplicação de uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos importados de países que, segundo Washington, não adotam mecanismos eficazes para impedir a entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
O Brasil aparece entre os principais alvos da medida, ao lado de economias como China, Índia, Japão, Reino Unido, Argentina e Arábia Saudita.
A proposta surge poucos dias depois de outra recomendação do governo americano que prevê uma sobretaxa de 25% sobre parte das exportações brasileiras, elevando a tensão entre Brasília e Washington e aumentando a preocupação de empresários e exportadores nacionais.
Acusação envolve fiscalização de produtos importados
Diferente de outras disputas comerciais recentes, a investigação não acusa diretamente o Brasil de utilizar trabalho escravo em sua produção.
O foco do relatório está na alegação de que o país não possui mecanismos considerados suficientes para impedir a importação de produtos fabricados com trabalho forçado em outras partes do mundo.
Segundo o USTR, embora o Brasil mantenha políticas reconhecidas internacionalmente de combate ao trabalho análogo à escravidão — incluindo a chamada “Lista Suja” do trabalho escravo —, o governo brasileiro não teria implementado uma proibição efetiva para barrar a entrada de mercadorias produzidas nessas condições por fornecedores estrangeiros.
Na avaliação americana, essa situação cria um ambiente de concorrência considerado desleal para empresas dos Estados Unidos.
Tarifa pode se somar a outras sanções
Um dos pontos que mais preocupam o setor produtivo brasileiro é a falta de clareza sobre a forma de aplicação das novas medidas.
O relatório não especifica se a nova tarifa de 12,5% será acumulada com a sobretaxa de 25% proposta anteriormente contra produtos brasileiros.
Caso as duas medidas sejam somadas, determinados setores exportadores poderiam enfrentar uma barreira tarifária superior a 37%, comprometendo a competitividade de produtos nacionais no mercado americano.
A definição deverá ocorrer após o encerramento da fase de consulta pública aberta pelo governo dos Estados Unidos.
Governo Trump endurece discurso
O embaixador Jamieson Greer, representante comercial dos Estados Unidos, afirmou que o país não pretende mais tolerar práticas que, segundo ele, prejudicam trabalhadores e empresas americanas.
“A falha de nossos parceiros comerciais em lidar com a importação de bens feitos com trabalho forçado é inaceitável. Isso força os trabalhadores americanos a competir em um campo desigual. Não toleraremos mais”, declarou.
O posicionamento reforça a política comercial mais agressiva adotada pelo presidente Donald Trump em seu novo mandato, marcada pelo aumento de tarifas, revisão de acordos internacionais e fortalecimento de barreiras para importações consideradas prejudiciais à indústria americana.
Brasil já é referência no combate ao trabalho escravo
Especialistas observam que o Brasil possui uma das legislações mais rigorosas do mundo no combate ao trabalho análogo à escravidão.
Desde os anos 1990, grupos móveis de fiscalização atuam em operações de resgate de trabalhadores explorados em atividades rurais e urbanas. O país também mantém mecanismos de transparência reconhecidos internacionalmente, como o Cadastro de Empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas à escravidão, conhecido como Lista Suja.
Por esse motivo, a inclusão do Brasil entre os países investigados gerou questionamentos de entidades empresariais e especialistas em comércio exterior.
Consulta pública segue até julho
A proposta ainda não entrou em vigor.
O governo americano receberá manifestações de empresas, entidades e governos até 6 de julho. No dia seguinte, o USTR realizará audiências públicas para discutir a adoção das medidas.
Somente após essa etapa será tomada uma decisão definitiva sobre a aplicação das tarifas.
Enquanto isso, o governo brasileiro acompanha a situação e avalia os possíveis impactos para setores exportadores, especialmente agronegócio, indústria de transformação, siderurgia e manufaturas, que mantêm forte presença no mercado norte-americano.
A nova investigação amplia um cenário de crescente atrito comercial entre Brasil e Estados Unidos, que já inclui divergências envolvendo o Pix, comércio digital, desmatamento e políticas industriais.






