O prefeito de Governador Valadares, Coronel Sandro (PL), teve o mandato cassado pela Câmara Municipal após uma longa sessão extraordinária realizada nesta quinta-feira (14). O placar terminou em 18 votos favoráveis à cassação e 3 contrários, ultrapassando o mínimo de dois terços exigido pela legislação.
A decisão encerra uma das maiores crises políticas recentes do município do Vale do Rio Doce e representa a primeira cassação de um prefeito na história política da cidade.
Com a perda do mandato, o vice-prefeito José Bonifácio Mourão assume a administração municipal. A posse foi marcada para esta sexta-feira (15), na sede da Câmara.
Transporte escolar virou centro da crise
O processo político-administrativo teve origem em denúncias relacionadas à contratação do transporte escolar da rede municipal. Segundo a acusação, a prefeitura utilizou um modelo de credenciamento considerado inadequado para o serviço, além de permitir o início da operação antes da formalização contratual.
As investigações apontaram ainda pagamento superior a R$ 2,7 milhões por meio de reconhecimento de dívida para regularizar serviços já executados. Vereadores também citaram suspeitas de sobrepreço e aumento expressivo da quilometragem contratada sem justificativa técnica clara.
O caso ganhou repercussão após desdobramentos no Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG), que já havia determinado bloqueio de bens relacionados à investigação.
Sessão teve apagão, protestos e clima de confronto
O julgamento durou cerca de 12 horas e foi marcado por tensão dentro e fora da Câmara Municipal. Manifestantes favoráveis e contrários ao prefeito acompanharam a sessão, que precisou ter segurança reforçada com apoio policial.
Durante a tarde, uma queda de energia atingiu tanto a Câmara quanto o prédio da prefeitura. Mesmo sem eletricidade, a sessão prosseguiu com uso de lanternas, caixas de som e microfones portáteis até a chegada de um gerador.
A hipótese de sabotagem chegou a circular nos bastidores, mas a Polícia Civil de Minas Gerais informou posteriormente que a interrupção ocorreu por sobrecarga elétrica, sem indícios de ação criminosa.
Coronel Sandro tentou barrar julgamento
Na véspera da votação, a defesa do prefeito tentou suspender a sessão por meio da Justiça, mas o pedido foi negado.
Durante o julgamento, o advogado Thiago Azevedo de Castro afirmou que o processo tinha motivações políticas e apontou supostas falhas na condução da comissão processante.
Já Coronel Sandro compareceu ao plenário nas horas finais da sessão e criticou vereadores e empresários envolvidos na denúncia. Após a cassação, classificou o resultado como “a maior injustiça” já ocorrida na cidade.
A defesa informou que recorrerá ao Judiciário para tentar reverter a decisão.
Nova denúncia já havia ampliado pressão política
Enquanto o julgamento do transporte escolar avançava, a Câmara também recebeu um novo pedido de cassação contra o prefeito envolvendo supostas irregularidades na compra de kits escolares, caso que ficou conhecido nos bastidores políticos locais como “Mochilaço”.
A nova denúncia aumentou ainda mais a pressão política sobre o então prefeito, que enfrentava desgaste crescente junto à base parlamentar.
Quem é Coronel Sandro
Natural de Galileia, no leste mineiro, Coronel Sandro é militar reformado da Polícia Militar de Minas Gerais e foi eleito deputado estadual antes de vencer a eleição para prefeito de Governador Valadares em 2024 pelo PL, partido ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Durante a carreira política, tornou-se conhecido pelo discurso alinhado à direita conservadora e por embates frequentes com setores da oposição mineira.
A cassação agora abre um novo capítulo na política de Governador Valadares, cidade de cerca de 260 mil habitantes considerada um dos principais polos econômicos do leste de Minas Gerais.






