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Home Colunas

Uivo silencioso

Por Nilson Lattari
27 de março de 2026 - 09:46
em Colunas
Uivo silencioso

Crédito: Lilian Jeane Schiffer | Unsplash

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No meio da noite, rompendo silêncio, um cão uiva para a lua. Essa imagem, mais parecida com o lobo no meio da floresta, figuras grotescas da imaginação atribuiu ao som do uivo um sentido do malévolo, do mau agouro. Sim, pode ser isso, afinal, por que os cães, descendentes dos lobos, uivam. É o chamado selvagem que ainda permanece dentro deles, talvez.

Mas esse uivo, perdido na noite silenciosa, pode significar também um pedido de ajuda, um grito de dor, de solidão ou de abrigo. Afinal, muitos cães não estão nas casas, onde encontram comida, água, carinho e proteção. Quanto aos outros, são os renegados sociais dos pets perambulando tristemente pelas ruas. Uivam como um pedido de socorro, de proteção contra outros cães, igualmente perambulando pelas cidades.

O uivo de um cão sempre é envolto de mistério, de que algo de mau vai ocorrer a qualquer momento. Pode ser também um chamado para que algum ente superior venha em seu auxílio, um lamento perdido.

As pessoas podem perceber o sentimento de angústia de um cão perdido e do seu dono que não consegue dormir por não encontrá-lo. Quem sabe o uivo possa ser um chamado não para o lado selvagem, mas para um sentimento de lembranças, de histórias vividas e que ele não pode mais encontrar seu lugar.

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Os seres humanos podem passar pelo mesmo sentimento quando têm uma perda, e a alma grita em silêncio, e a voz não consegue ser propriamente um uivo, mas um pedido de clemência. Um enfermo que encara uma doença dolorosa grita como um uivo para que alguém lá em cima o ouça e ajude. Um pedido de socorro para aliviar o sofrimento que sente. Um preso olha as grades da prisão e vê a noite sendo iluminada e sente vontade de uivar para poder participar da festa da vida que está perdendo. Pode admirar a lua e perceber que muitos ao redor do mundo também a miram, guardando vários sentimentos, dentre eles a sensação de ter a liberdade enquanto outros encarcerados não a têm.

Mas também o uivo pode ser um hino e uma celebração para a liberdade, do final do sofrimento, de um bater forte de mãos no peito para comemorar. O ser humano festeja a si mesmo e às suas vitórias, pessoais ou do seu time do coração. Um grito de alívio que encontra eco em outros uivos, soltar de fogos, gritos de alegria. Algo que, finalmente, ganha asas e sai por aí batendo no peito com as duas mãos como se fossem asas para voar livremente.

Um grupo de sobreviventes que durante muito tempo vagou perdido finalmente encontra a civilização, uma casa isolada que significa a presença de gente. De longe gritam e uivam para alertar aos outros que o caminho de volta foi encontrado. Pode ser uma família que celebra a volta do filho que desapareceu, da comunidade que lamenta uma tragédia ou comemora algum feito inesquecível.

O uivo é um sentimento silencioso quando a alma se cala diante da injustiça, esperando que dias melhores aconteçam. O uivo silencioso pode ser expelido pelo olhar calmo e seguro do lobo escondido dentro de nós, que espera somente o momento certo para revidar.

Tags: comportamentocrônicasliteraturaNilson LattariReflexãosociedade
Nilson Lattari

Nilson Lattari

Crônicas e Contos. NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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