O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a colocar em xeque o sistema eleitoral do país ao defender que o governo federal intervenha diretamente na contagem de votos em determinadas cidades e estados nas eleições deste ano. As declarações, feitas em eventos públicos e entrevistas recentes, contrariam o modelo constitucional americano, que atribui aos estados a condução dos pleitos.
Trump citou cidades como Detroit, Filadélfia e Atlanta como exemplos de locais onde, segundo ele, haveria falhas ou irregularidades na apuração. Na avaliação do presidente, se autoridades estaduais ou locais não conseguem garantir uma contagem “legal e honesta”, o governo federal deveria assumir essa função.
As falas ocorreram na Casa Branca, durante a assinatura de atos administrativos, e também em entrevistas a aliados políticos e veículos conservadores. Em uma delas, Trump sugeriu que seus apoiadores deveriam “agir” diante do que considera incapacidade de alguns estados em organizar eleições confiáveis.
Sistema descentralizado sob pressão
Nos Estados Unidos, a organização das eleições federais é descentralizada. Cada estado define regras, administra seções eleitorais e realiza a apuração, enquanto o governo federal tem papel limitado. Esse modelo está previsto na Constituição e foi reforçado ao longo de décadas para evitar concentração de poder sobre o processo eleitoral.
Especialistas em direito constitucional apontam que a proposta defendida por Trump não encontra respaldo legal e exigiria mudanças profundas na legislação ou na própria Constituição. Ainda assim, o presidente tem insistido na tese de que eleições deveriam ser “nacionalizadas”, ao menos em estados onde ele afirma existir alto grau de fraude — alegações que, até hoje, não foram comprovadas.
Buscas do FBI e retomada do discurso de fraude
As declarações de Trump surgem poucos dias depois de uma operação do FBI no principal escritório eleitoral do Condado de Fulton, na Geórgia. A ação teve como objetivo apreender registros relacionados à eleição presidencial de 2020, vencida pelo democrata Joe Biden.
O condado, que inclui Atlanta, tornou-se símbolo das alegações de fraude levantadas por Trump após sua derrota. Desde então, ele vem tentando reverter o resultado na Justiça, apesar de decisões reiteradas de tribunais que rejeitaram as acusações por falta de provas.
Aliados do presidente afirmam que as buscas fazem parte de um esforço do Departamento de Justiça para investigar supostas irregularidades. Críticos, por outro lado, veem na iniciativa um uso político de órgãos federais para reforçar narrativas já desacreditadas.
Eleições de meio de mandato e disputa no Congresso
As eleições deste ano definirão todas as cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 vagas no Senado. Atualmente, os republicanos mantêm maioria apertada nas duas Casas, mas historicamente o partido do presidente costuma perder força nas eleições de meio de mandato.
Além das críticas ao sistema de votação, Trump e líderes republicanos têm defendido mudanças no desenho dos distritos eleitorais ainda no meio da década, estratégia que pode favorecer o partido na disputa por cadeiras no Congresso.
O presidente também voltou a atacar métodos como o voto por correio e o uso de máquinas eletrônicas, práticas amplamente utilizadas e reguladas no país. Em ocasiões anteriores, Trump chegou a prometer ordens executivas para restringir esses mecanismos, mas recuou diante de questionamentos legais.
Reações e alertas
Autoridades eleitorais democratas passaram a discutir medidas preventivas diante do risco de interferência federal. Secretários de Estado de diferentes regiões relatam preocupação com possíveis pressões sobre equipes locais e com pedidos de acesso a dados sensíveis de eleitores.
Para críticos da Casa Branca, o discurso presidencial amplia a desconfiança no processo democrático e pode criar um ambiente de instabilidade política. Já aliados de Trump afirmam que as declarações buscam fortalecer a segurança eleitoral e pressionar o Congresso a aprovar leis mais rígidas, como a exigência nacional de identificação de eleitores.
À medida que as eleições se aproximam, o debate sobre quem deve controlar a votação — estados ou governo federal — tende a se intensificar, recolocando no centro da cena um tema que marcou o pós-eleição de 2020 e segue dividindo o país.






