Vivemos em competição por tudo. Por um mundo melhor, por um mundo pior, por uma meta, por um descanso, por uma paz ou por uma guerra. Vivemos nossas batalhas diárias e saímos para as ruas disfarçados no que não somos, para nos defender de quem não conhecemos. O único elo que desarma todas essas bombas é o afeto que poderíamos sentir uns pelos outros.
Mas o tempo é um ladrão que nos rouba a todo instante. Muitas vezes nós nos roubamos, nos sabotamos, intencionalmente ou não. Muitas vezes na busca do afeto que se encerra em nós, sem abertura para mais ninguém.
Se lutamos por um mundo melhor, o tempo nos rouba quando refletimos do porquê o outro não o quer ou, simplesmente, ele estará bem desde que seu ponto de vista prevaleça, e perdemos nosso tempo em um convencimento inútil.
Se lutamos por um mundo pior, ele decorre do tempo que perdemos em tentar elaborar expertises que farão a nossa diferença no mundo, ou então sabotamos o próprio mundo, perdendo tempo em desejar que o outro não prevaleça, que não vença e que permaneça estacionado, à espera da nossa suposta passagem vitoriosa. Perdemos nosso tempo imaginando nossa vitória e perdemos tempo imaginando que o outro vai se importar ou não.
Se lutamos por uma meta, um objetivo, sejam eles de uma boa medida ou não, perdemos nosso tempo tentando imaginar as estratégias que tirarão alguém do caminho, porque sempre haverá alguém nele, e pensamos que esse outro não tem o direito de fazer perder nosso tempo. Não imaginamos o contorno, mas imaginamos o confronto e perdemos nosso tempo com isso.
Se lutamos por uma paz, é porque queremos o silêncio, e isso importa no silêncio do outro, porque na nossa paz interior o silêncio do outro não é importante. O mais importante é o silêncio que queremos ter dentro de nós, e se somos incapazes disso, porque nosso mundo se move pela raiva ou pelo ódio, pelo desamor ou pela indiferença, tudo isso leva um tempo para criar, alimentar e gerir.
Também lutamos por uma guerra, seja ela para a nossa sobrevivência ou para nossa subserviência. Muitas vezes compramos a guerra do outro, imaginando que ela nos pertence. Nossa raiva, nosso ódio, nosso amor, nosso carinho são as armas que temos.
Quanto tempo nós levamos para ter tempo de fazer no tempo que nos resta?
O tempo avança, inexoravelmente, e vamos roubando dele o tempo que é necessário e importante para nós. O tempo é um bem inestimável, esgotável e, cada vez mais, temos mais passado do que futuro. E se fizermos um balanço de perdas e danos, vamos verificar que roubamos de nós mesmos o maior bem que temos; que é o tempo que nos resta.






