A cidade de Itabira, na região central de Minas Gerais, atravessa nos últimos anos, uma das mais graves crises hídricas de sua história recente. Em 2024, o problema chegou ao limite: torneiras secas, bairros inteiros sem abastecimento regular e moradores obrigados a recorrer à zona rural para tomar banho, lavar roupas e até buscar água para uso doméstico.
O colapso expôs uma fragilidade estrutural antiga. A principal estação de tratamento de água do município, a ETA Pureza, foi inaugurada em 1973, durante o governo do ex-prefeito Virgílio José Gazire, quando Itabira tinha cerca de 56 mil habitantes, segundo dados históricos do IBGE. Naquele período, a estrutura era suficiente para garantir abastecimento contínuo e de qualidade. Abrir a torneira significava ter água disponível diretamente da rede pública, sem interrupções.
Com o crescimento acelerado da cidade, impulsionado pela expansão da então Companhia Vale do Rio Doce, o sistema começou a operar no limite. A discussão sobre novas fontes de captação passou a integrar o planejamento urbano, mas avançou lentamente.
Em 1986, com a população estimada em 78 mil habitantes, foi implantada a ETA Gatos, – na gestão do ex-prefeito José Maurício Silva – uma estação menor que a Pureza, mas com capacidade para suprir cerca de 40% da demanda urbana da época. Aquela foi a última grande obra estruturante do sistema de produção de água de Itabira.
Desde então, ao longo de quase quatro décadas, não houve investimentos de porte equivalente capazes de acompanhar a evolução habitacional e econômica do município. As ações se limitaram, em grande parte, à perfuração de poços, sobretudo na zona rural, com alcance restrito às comunidades locais.
Crise crônica e a busca por uma solução definitiva
A limitação dos mananciais existentes, associada a períodos prolongados de estiagem, transformou a escassez de água em um problema crônico. Com a crise já instalada, voltou ao centro do debate a necessidade de captar um volume significativamente maior de água.
Estudos técnicos começaram a ser elaborados e o tema passou a ser discutido por lideranças comunitárias, técnicas e políticas. Nesse contexto, o Rio Tanque passou a ser apontado como a única alternativa viável capaz de garantir abastecimento ao município por um horizonte mais longo.
A proposta, no entanto, sempre foi tratada como um desafio complexo. O projeto envolve uma obra de grande porte, com custo elevado, fora da capacidade financeira do município. Além disso, o traçado da adutora, com cerca de 25 quilômetros, atravessa áreas de Mata Atlântica, o que tornou o licenciamento ambiental um dos principais pontos de tensão do processo.
Da discussão política ao projeto institucional
As primeiras discussões mais consistentes sobre a captação do Rio Tanque ganharam força ainda no segundo mandato do ex-prefeito João Izael Querino Coelho (2009 a 2012). O tema avançou durante a gestão de Damon Lázaro de Sena (2013 a 2016), quando passou a integrar o planejamento estratégico da cidade, embora sem execução prática naquele momento.
Foi durante o governo de Ronaldo Lage Magalhães (2017 a 2020) que o projeto começou, efetivamente, a sair do papel. Em 2019, o então prefeito encaminhou à Câmara Municipal um projeto de lei que ampliou a discussão institucional e permitiu a entrada de novos atores no processo. A proposta foi aprovada e abriu caminho para a construção de um acordo mais amplo envolvendo o município, o SAAE Itabira e a Vale.
Como parte de um compromisso firmado em 2020 com o Ministério Público de Minas Gerais, a Prefeitura e o SAAE, a Vale assumiu a responsabilidade pela execução integral do empreendimento, incluindo captação, adutora e construção de uma nova Estação de Tratamento de Água (ETA), até a entrega ao sistema municipal.
Licenciamento ambiental e início das obras
O licenciamento ambiental foi concedido em outubro de 2024, na modalidade Licença Ambiental Simplificada (LAS/RAS), conforme registros do sistema oficial de licenciamento ambiental de Minas Gerais. Com a emissão da licença, as obras tiveram início em março de 2025, sendo integralmente custeadas pela Vale.
O projeto prevê a implantação de uma nova ETA com capacidade de 600 litros por segundo, volume 3 vezes superior à produção atual dos sistemas que hoje abastecem a cidade e considerado suficiente para garantir maior segurança hídrica.

Uma obra necessária e os limites ambientais
A importância estratégica do Projeto Rio Tanque é reconhecida até mesmo por críticos da obra. Atualmente, as represas que abastecem Itabira operam no limite e, em períodos críticos, não conseguem suprir sequer a demanda doméstica. Esse cenário afeta diretamente a qualidade de vida da população e limita qualquer perspectiva de crescimento econômico, já que inviabiliza a atração de novas empresas e empreendimentos.
Ao mesmo tempo, a obra impõe uma intervenção significativa no território. O licenciamento reconhece a necessidade de supressão de vegetação nativa em áreas de Mata Atlântica, o que ampliou o debate ambiental na cidade.
O Folha de Minas recebeu denúncias relacionadas à execução das obras, incluindo o relato de derramamento de óleo diesel em um curso d’água, supressão considerada expressiva de mata nativa e impactos sobre a fauna silvestre. Moradores da zona rural relataram aumento do deslocamento de animais para áreas próximas a residências, atribuído ao barulho de máquinas e à retirada da vegetação em seu habitat natural.
O que diz a Vale
Procurada pelo O Folha de Minas para esclarecer denúncias e prestar informações detalhadas sobre os impactos ambientais do Projeto Rio Tanque, a Vale encaminhou à reportagem esclarecimentos técnicos sobre as intervenções previstas, as medidas de mitigação adotadas e o cronograma da obra.
Segundo a empresa, o Projeto Rio Tanque integra um compromisso formal firmado em 2020 com o Ministério Público de Minas Gerais, a Prefeitura de Itabira e o SAAE, com acompanhamento de auditoria externa. O objetivo do empreendimento é ampliar a segurança hídrica do município por meio da implantação de um novo sistema de captação de água bruta no Rio Tanque, reforçando o abastecimento público operado pelo SAAE.
No que se refere às intervenções ambientais, a Vale informou que a supressão de vegetação nativa prevista para o projeto é de aproximadamente dez hectares, além de árvores nativas isoladas ao longo do traçado da obra. As áreas afetadas estão inseridas no bioma Mata Atlântica, em um contexto marcado por diferentes tipos de ocupação, que incluem fragmentos de floresta estacional semidecidual montana, áreas de plantio de eucalipto e trechos já antropizados.
Os levantamentos ambientais realizados para o licenciamento identificaram a presença de espécies protegidas, ameaçadas de extinção e endêmicas, entre elas duas espécies de ipê-amarelo (Handroanthus chrysotrichus e Handroanthus serratifolius) imunes ao corte pela legislação estadual. De acordo com a empresa, essas informações foram incorporadas ao diagnóstico ambiental que orienta o planejamento da obra e a adoção das medidas de manejo e mitigação previstas.
Em relação à fauna silvestre, a Vale afirmou que adotou um conjunto de programas ambientais específicos para reduzir impactos durante a implantação do projeto. As ações incluem monitoramento contínuo de diferentes grupos animais, acompanhamento da supressão vegetal com possibilidade de resgate e salvamento de fauna, além de controles voltados à redução de ruído, vibração, poeira, impactos sobre cursos d’água e processos erosivos.
A empresa informou que a supressão vegetal é acompanhada por equipes especializadas, formadas por biólogos e médicos veterinários, responsáveis por conduzir ações de afugentamento, monitoramento e resgate quando necessário. Essas medidas fazem parte de um plano elaborado especificamente para o Projeto Rio Tanque e estão integradas ao Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD).
Como forma de compensação ambiental, a Vale informou que está adotando medidas de conservação e recuperação florestal em áreas que, somadas, superam a extensão da vegetação suprimida. Entre as ações estão a destinação de cerca de 18 hectares para conservação por meio de servidão ambiental em área rural de Itabira, dentro dos limites da Fazenda Grota da Angélica, o plantio de 12.990 mudas de espécies nativas em uma área aproximada de nove hectares na Fazenda Cauê e outros no município e a proposta de doação ao poder público de uma área de 9,4134 hectares localizada dentro do Parque Nacional da Serra do Gandarela, na mesma bacia hidrográfica.
A empresa também informou que realiza resgate de flora, com coleta de sementes, mudas e material genético das espécies removidas, trabalho conduzido pelo viveiro de mudas da própria companhia, com apoio de empresas especializadas. O material resgatado passa por identificação, armazenamento e cuidados técnicos antes de ser destinado a áreas previamente definidas.
Quanto ao acompanhamento ambiental ao longo do tempo, a Vale afirmou que o monitoramento ocorre de forma contínua, com inspeções em campo, atuação de equipes multidisciplinares nas frentes de obra e execução dos programas previstos no Plano de Controle Ambiental. A empresa informou ainda que mantém canais oficiais de comunicação para receber manifestações da comunidade, como sugestões, reclamações e informações relacionadas ao empreendimento.
Sobre o cronograma, a Vale informou que a conclusão do Projeto Rio Tanque, incluindo o comissionamento do sistema, está prevista para dezembro de 2027. As intervenções diretas em áreas de vegetação nativa ocorrem de forma gradativa, acompanhando o avanço das obras, com previsão de término até o terceiro trimestre de 2027.

Entre a urgência e a fiscalização
O Projeto Rio Tanque marca uma virada histórica no abastecimento de água de Itabira, após décadas sem grandes investimentos estruturais. Ao mesmo tempo, impõe à cidade um novo desafio: garantir que a execução da obra cumpra rigorosamente as condicionantes ambientais e que os impactos sejam devidamente mitigados.
A partir de agora, o debate público deixa de ser apenas sobre a necessidade da obra e passa a envolver transparência, fiscalização permanente e acompanhamento dos compromissos ambientais, elementos essenciais para que a segurança hídrica não seja alcançada às custas do patrimônio natural da região.
Prefeitura é procurada, mas não responde aos questionamentos da reportagem
Além da Vale, responsável pela execução do Projeto Rio Tanque, O Folha de Minas também procurou a Prefeitura de Itabira para esclarecer qual tem sido o papel do município no acompanhamento e na fiscalização ambiental da obra.
O contato foi feito no dia 7 de janeiro, por meio da assessoria de comunicação e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Proteção Animal, com questionamentos sobre as ações adotadas pelo Executivo para monitorar a execução do empreendimento, o cumprimento das condicionantes ambientais do licenciamento e os impactos da obra sobre a vegetação nativa, a fauna silvestre e as comunidades do entorno.
A reportagem também buscou informações sobre a existência de equipes técnicas ou instâncias municipais responsáveis pelo acompanhamento do projeto, a realização de vistorias ou o recebimento de relatórios periódicos, além dos mecanismos de transparência e comunicação com a população.
Até o fechamento desta matéria, nesta quarta-feira (4), a Prefeitura de Itabira não havia encaminhado respostas nem retornado os contatos da reportagem.






