“Ainda é cedo, amor/Mal começaste a conhecer a vida/
Já anuncias a hora de partida/
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar/
Presta atenção, querida/Embora eu saiba que estás resolvida/
Em cada esquina cai um pouco tua vida/
Em pouco tempo não serás mais o que és/
Ouça-me bem, amor/Preste atenção, o mundo é um moinho/
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho/
Vai reduzir as ilusões a pó/Preste atenção, querida/
De cada amor, tu herdarás só o cinismo/
Quando notares, estás à beira do abismo/
Abismo que cavaste com teus pés”
– Marineth, a música “O mundo é um moinho” é uma das obras primas de Angenor de Oliveira, conhecido e admirado pelo apelido de Cartola. E ninguém nada mais e nada menos que outro consagrado compositor, também mangueirense, dizia que “Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve”. Essa definição é de Nelson Mattos, o popular Nelson Sargento, cunhada pela saudosa jornalista Diana Aragão, respeitada crítica de música, em matéria jornalística.
– Athaliba, realmente, tem que se exaltar a revelação do Nelson. Ele foi renomado baluarte da Mangueira. Nasceu em 25/6/1924 e faleceu 27/5/2021, aos 96 anos, vítima de Covid-19, conforme noticiou a direção do Instituto Nacional de Câncer – INCA -, onde se internou em 22/5/2021. Nelson teve Angenor como parceiro em “Vim lhe pedir” e “Samba do operário”. E suas músicas foram gravadas por Paulinho da Viola, Elizeth Cardoso e Beth Carvalho, tendo entre os sucessos “Falso amor sincero”, “Agoniza, mas não morre”, “Cântico à natureza”.
– Marineth, no repertório do disco do Cartola, lançado em 1976, completando meio século, em 2026, além de “O mundo é um moinho”, ele é autor de “Minha”, “Sala de recepção”, “Cordas de aço”, “Ensaboa”, “Sei chorar”, “Aconteceu”, “As rosas não falam”, “Não posso viver sem ela”, em parceria com Alcebíades Maia Barcellos, o Bide; e “Peito vazio”, parceria com Elton Medeiros. E ainda “Senhora tentação”, de Silas de Oliveira e “Preciso me encontrar”, de Antônio Candeia.
– Athaliba, ocê citou a jornalista Diana Aragão Martins, recordando que foi em entrevista dela com o Nelson Sargento que ele disse que “Cartola foi um sonho”. Saiba que ela faz parte da história da MPB – Música Popular Brasileira -, como crítica, produtora e diretora de shows. Morreu em 27/1/2022, aos 73 anos, sem realizar o sonho de fazer a biografia da cantora Alcione. A artista disse o seguinte sobre a jornalista: “Diana sempre acompanhou minha carreira e guardo uma das mais belas crônicas que ela escreveu, com muito orgulho”.
– Marineth, uma bisbilhotice do meio artístico. Diz-se que o Agenor de Miranda Araújo Neto, apelidado Cazuza, artista que despontou no conjunto Barão Vermelho, não gostava do nome de batismo. E passou a assumir com orgulho depois de saber que o nome do ídolo dele, o Cartola, compositor da Mangueira, era Angenor, que foi registrado com erro gráfico do “n”. E só percebeu o erro quando organizava a papelada para o casamento com Eusébia Silva do Nascimento, mais conhecida como Dona Zica, sua segunda mulher.
– Bem, Athaliba, deixando de lado essa oportuna curiosidade, conta quem foi Cartola.
– Marineth, ele nasceu 11/10/1908 e faleceu 30/11/1980, no Rio de Janeiro, sendo o mais velho de oito irmãos. Do bairro do Catete, a família fixou-se no Morro da Mangueira, quando tinha nove anos. Lá conheceu Carlos Moreira de Castro, o Carlos Cachaça (3/8/1902 – 16/8/1999), um dos seus parceiros e, ambos, fundadores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Foi aprendiz de tipógrafo, mas, como ajudante de pedreiro, ganhou o apelido por usar o chapéu-coco para proteger a cabeça do cimento.
– Athaliba, quando foi fundada a Mangueira?
– Marineth, a fundação é de 28 de abril de 1928. E Cartola se projetou através de artistas consagrados que gravavam suas músicas, como Carmem Miranda, Francisco Alves, Mário Reis e Araci de Almeida. Enfim, para saber da importância dele para a MPB é fundamental mergulhar na sua obra. E, pela excelência de qualidade, tem-se a impressão de que “Cartola foi um sonho”.






