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Home Colunas

João Bosco: Caça à raposa

Por Lenin Novaes
16 de dezembro de 2025 - 07:19 - Última atualização: 29 de dezembro de 2025 - 08:49
em Colunas

João Bosco, mineiro de Fonte Nova. Foto: Victor Corrêa | Divulgação 

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“Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu”

– Marineth, a música “Mestre-sala dos mares”, iniciada com os versos acima, consolidou a parceria João Bosco e Aldir Blanc. Ficou eternizada na voz da Elis Regina. A composição está no LP Caça à raposa, o 2º disco de carreira de João Bosco, concluindo meio século neste ano de 2015. O título original, “O almirante negro”, em homenagem ao João Cândido, o marinheiro herói da Revolta das Chibatas, foi censurado pela ditadura do golpe empresarial-militar de 1964-1985.

– Athaliba, a música finaliza assim: “Conhecido como navegante negro/Tinha a dignidade de um mestre-sala/E ao acenar pelo mar, na alegria das regatas/Foi saudado no porto, pelas mocinhas francesas/Jovens polacas e por batalhões de mulatas/Rubras cascatas/Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas/Inundando o coração do pessoal do porão/Que a exemplo do feiticeiro, gritava então/Glória aos piratas, às mulatas, às sereias/Glória à farofa, à cachaça, às baleias/ Glória a todas as lutas inglórias/Que através da nossa história não esquecemos jamais/Salve o navegante negro/Que tem por monumento as pedras pisadas do cais”.

– Marineth, além da censura que levou à troca do título da composição, também ocorreram algumas mudanças na letra. Por exemplo, “almirante” virou “navegante” e, depois “mestre-sala”. E “negros” foi substituído por “santos”. Os versos como “rubras cascatas, jorravam pelas costas do negro, pelas pontas da chibata” foram modificados para “rubras cascatas, jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas”. A dupla de compositores inseriu elementos como “polacas”, baleias e “regatas”, conseguindo, assim, driblar a truculência dos censores.

– Athaliba, todas as músicas do repertório são do João Bosco e do Aldir Blanc. Na relação tem “De frente pro crime”, “Dois pra lá, dois pra cá”, “Jardins da infância”, “Jandira da Gandaia”, “Escadas da Penha”, “Casa de marimbondo”, “Nessa data”, “Bodas de prata”, “Violeta de Belfort Roxo”, “Caça a raposa” e “Kid Cavaquinho”. Produzido por Rildo Hora, com arranjos de César Camargo Mariano, as gravações tiveram músicos como Dino 7 Cordas, Hélio Delmiro, Luizão Maia, Chico Batera, Toninho Horta, Neco (Daudeth Azevedo) e Pascoal Meirelles, entre outros.

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– Marineth, o João Cândido Felisberto liderou a revolta, em 1910, apontando os canhões de embarcações, na Baía de Guanabara, para a capital da República, o Rio de Janeiro. O estopim da revolta foi a punição ao marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes, com 250 chibatadas. João morreu em 1969, aos 89 anos. Fora expulso da Marinha e, depois, anistiado duas vezes. Mas, a família não recebeu nenhuma reparação. Na ABI – Associação Brasileira de Imprensa – convivi com  Adalberto Cândido, o Candinho, filho dele, funcionário daquela instituição. E, quando estive assessor de imprensa do MIS – Museu da Imagem e do Som -, lançamos livro com o depoimento do herói da Revolta das Chibatas.

– Athaliba, a escola de samba Paraíso do Tuiuti, em 2024, ficou classificada em 8º lugar no desfile, no sambódromo, com o enredo Glória ao Almirante Negro. Homenageou João Cândido, com apresentação marcada por forte crítica social. O marinheiro nasceu em 1880, no Rio Grande do Sul, em Encruzilhada. Ainda jovem entrou para a Marinha. Após expulso da corporação, viveu da pesca. De acordo com o Ministério Público Federal – MPF -, ele tem direito a uma série de benefícios devido à carreira militar, mas que são negados até os dias de hoje, covardemente.

– Marineth, quando o Sérgio Ricardo lançou o projeto Disco de Bolso, encartado no jornal O Pasquim, em 1972, o Tom Jobim se disse ameaçado com o então artista novato João Bosco. É que no compacto tinha a música “Águas de março”, dele, de um lado e, do outro, “Agnus sei”, interpretada por João Bosco, parceria com Aldir Blanc. A proposta era a de juntar um artista já consagrado com um estreante. O título do compacto era O Tom de Antônio Carlos Jobim e o tal de João Bosco. A música do artista mineiro de Ponte Nova balançou a estrutura do maestro.

– A questão de fundo disso, Athaliba, é que o maestro, com aquela reação, aprovava o tal desconhecido João Bosco. E, creia, ele sentiu profundo orgulho de poder dividir aquela pequena “bolacha” com o artista que esbanjaria talento, elevando a música popular em alto nível.

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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