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Home Colunas

ARNAUD RODRIGUES, O TROPICALISTA DO HUMOR

Por Ediel Ribeiro
17 de outubro de 2025 - 11:55
em Colunas

Reprodução. 

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Rio de Janeiro – Uma noite, no Bip-Bip – o icônico boteco do Alfredinho -, num papo cabeça (gíria bem anos 70, né?) Nani me falou sobre Arnaud Rodrigues, que faleceu em 2010. O cartunista era fã do comediante.

Os dois tinham uma relação próxima, principalmente pelo convívio no meio artístico e humorístico dos anos 1970 e 1980. Ambos eram redatores dos programas de Chico Anysio. Nani e Arnaud se encontravam com frequência no circuíto de bares do Rio e em projetos ligados à televisão e à música.

A mistura de humor, crítica social e irreverência – muito marcada pelo espírito do Pasquim e pela contracultura da época – no trabalho de ambos, facilitava o convívio. Eles se conheceram nos bastidores da televisão, no tempo em que Chico Anysio reunia uma constelação de talentos para reinventar o humor nacional.

Antônio Arnaud Rodrigues nasceu em Serra Talhada, Pernambuco, no dia 6 de dezembro de 1942. Foi um ator, cantor, compositor, roteirista, produtor, empresário e humorista brasileiro. Artista multifacetado, destacou-se em diferentes áreas do entretenimento, sobretudo no ramo da comédia, dando voz a juventude intelectualizada e politizada que combatia o regime militar no Brasil dos anos 70.

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Arnaud, era parceiro de Chico Anysio em dezenas de personagens e músicas. Nos anos 70, junto com Chico e Renato Piau (músico e compositor), criou a dupla ‘Baiano & Os Novos Caetanos’, uma sátira ao tropicalismo. A dupla formada por Baiano e Paulinho Boca de Profeta (personagens de Chico Anísio e Arnaud Rodrigues, respectivamente, no humorístico “Chico City”) trazia em suas canções letras divertidas e engajadas e um instrumental de primeira, com belos arranjos de violões, sanfonas e cavaquinhos, entre outros instrumentos.

Clássicos como ‘Vô Batê Pá Tu’, que fala das delações na ditadura, e ‘Urubu Tá com Raiva do Boi’, uma crítica à situação econômica do país e ao “milagre econômico brasileiro”, e a bela ‘Folia de Reis’, fizeram de Baiano & Os Novos Caetanos um nome significativo no universo do samba-rock e da música rural.

A iniciativa rendeu quatro discos de estúdio, ‘Baiano & Os Novos Caetanos’ (I e II), ‘A volta’ e ‘Sudameris’, alavancando também a carreira de músico de Arnaud, que acabaria lançando mais alguns álbuns solo.

O humor brasileiro dos anos 70 e 80 era uma festa — e, como toda boa festa, tinha uma turma de gente talentosa, debochada e genial. Arnaud foi um dos grandes nomes da TV Tupi, tendo produzido e atuado em diversos shows da emissora, além de ter trazido vários artistas para a televisão, incluindo Dedé Santana. Na TV Globo, trabalhou nos programas de Chico Anysio e em vários outros programas humorísticos, tanto como ator quanto como redator.

Em 1978, o músico gravou a faixa ‘A Carta de Pero Vaz de Caminha’, integrada no disco Redescobrimento, o primeiro roots reggae gravado no Brasil. Arnaud Rodrigues foi um dos precursores do rap brasileiro. A sua faixa “Melô do Tagarela”, que foi lançada em compacto pela RCA em 1979 e cantada e falada por Luiz Carlos Miéle, sob uma sampleiada de Rapper’s Delight, do grupo americano Sugarhill Gang, foi a primeira versão de um rap gravado no Brasil.

Na teledramaturgia teve alguns trabalhos marcantes, como o Cego Jeremias, cantor ambulante da versão de 1985 da novela Roque Santeiro, além do imigrante nordestino Soró, personagem ingênuo e bem-humorado criado pelo escritor Walter Negrão para a novela Pão Pão, Beijo Beijo. Soró fez tanto sucesso entre o público que Arnaud voltaria a interpretá-lo no filme Os Trapalhões e o Mágico de Oróz.

Na década de 1980 integrou o grupo de humoristas do programa A Praça é Nossa sob o comando do veterano Carlos Alberto de Nóbrega, onde interpretou personagens como “O Povo Brasileiro” (sempre pobre e cansado), o mulherengo “Coronel Totonho”, e o cantor sertanejo “Chitãoró” (uma sátira à dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó), no quadro “Chitãoró e Xorãozinho” onde atuava ao lado do comediante (e posteriormente diretor da Praça) Marcelo de Nóbrega.

Em 1999, após realizar dois shows na cidade de Palmas, decidiu se mudar com a família para o Tocantins, onde assumiu a função de dirigente do Palmas Futebol e Regatas. Em 2004 deixou a Praça para se dedicar a seus shows solo e ao futebol, mas em 2010 planejava seu retorno ao elenco do humorístico, além da produção de um programa de variedades em um canal da TV Tocantins.

Arnaud se foi cedo, em 2010, num trágico acidente de barco no Tocantins. No dia 16 de fevereiro, Arnaud estava com mais dez pessoas em um barco no lago da Usina Hidrelétrica Luís Eduardo Magalhães, de Lajeado, a 26 quilômetros de Palmas, quando, por volta das 17h30, a embarcação virou devido a uma forte chuva com ventania característica da região nessa época do ano.

Nove ocupantes do barco (entre eles a esposa do humorista e dois de seus netos) foram resgatados por moradores da região, mas os corpos de Arnaud e do piloto do barco só foram encontrados pelos bombeiros horas mais tarde.

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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