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Home Colunas

UMA HISTÓRIA DO CACIQUE

Por Ediel Ribeiro
16 de junho de 2025 - 07:06
em Colunas

Bira Presidente de 88 anos, faleceu na noite deste sábado, 14 de junho de 2025, no Rio de Janeiro. (Divulgação) 

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Rio de Janeiro – Morei, durante muitos anos, ao lado da tradicional quadra do Bloco Cacique de Ramos, na Rua Uranos, em Ramos. Da minha janela, dava pra ver a famosa Tamarineira.

Era frequentador assíduo do Bloco. Irene, minha ex- esposa, ensaiava as princesas do bloco – a jornalista Glória Maria foi a primeira princesa do Cacique de Ramos – quando se aproximava o carnaval.

Às quartas-feiras, eu tomava porres homéricos, embaixo da Tamarineira, enquanto rolava a roda de samba, comandada pelo “Bira Presidente”.

Celeiro de grandes compositores, artistas do verso como: Almir Guineto, Deni de Lima, Beto Sem Braço, Neoci, Baianinho, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho e muitos outros. Sambistas que faziam do Cacique de Ramos um ponto de encontro da arte do Partido Alto e do autêntico samba de raiz.

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O Bloco era uma festa.

Eu era muito amigo do pessoal do Cacique. Principalmente, dos irmãos Bira e Ubirany, filhos do seu Domingos – que era amigo de Pixinguinha, Donga e Carlos Cachaça – e dona Conceição – filha de santo da famosa Mãe Menininha do Gantois.

Ubirajara Félix do Nascimento, o “Bira Presidente”, nasceu no samba. Aprendeu a tocar pandeiro com Honório Guarda. Mais tarde, conviveu com Aniceto do Império e outros que influenciaram a sua forma de tocar percussão.

Fundou, junto com Ubirany, Almir Guineto, Jorge Aragão, Neoci, Sereno e Sombrinha, o Grupo Fundo de Quintal.

Entrevistei o grupo várias vezes, para jornal, rádio e revista.

Entrevistei, também, Arlindo Cruz, Sombrinha, Jorge Aragão e Almir Guineto, quando deixaram o grupo e partiram para a carreira solo.

Um dia, Bira me ligou perguntando se eu não queria ser presidente do Cacique de Ramos.

Levei um susto!

– Tá maluco, Bira!

– Por que não? Você é dono de boteco, empresário de grupo de pagode, jornalista e gosta de samba. Tudo a ver, disse o “Presidente”.

Na época, o “Fundo de Quintal” viajava muito. Europa, Japão, Estados Unidos… e ele não estava conseguindo conciliar a carreira no grupo com a presidência do Bloco.

Marcamos uma reunião em seu apartamento, na Vila da Penha, próximo ao Largo do Bicão. Bira nos recebeu com a simpatia de sempre, num apartamento aconchegante, cheio de lembranças de viagens e imagens de santos.

Bira é muito religioso. Católico, filho de uma mãe de santo, faz orações todos os dias em sua casa. Quando acorda e antes de dormir.

Tomamos umas cervejas – eu e a Irene, Bira é um boêmio que não bebe (exceto o cálice diário de Vinho do Porto) – lá pelas tantas, Bira já estava quase me convencendo a aceitar a empreitada.

Comecei a vislumbrar ali a possibilidade de ganhar uma grana com o negócio.

Afinal, o Cacique ficava lotado nos dias de roda de samba.

Foi quando o Bira decretou: só não vou te dar o bar.

É dali que sai o dinheiro para manter o Bloco.

Bom, restava a bilheteria, pensei.

Então, como se lê-se o meu pensamento, ele mandou:

Outra coisa, não quero que cobre ingresso. A roda de samba sempre foi grátis.

Eu olhei pra ele e disse: “Porra, Bira! Como é que eu vou ganhar dinheiro com esse negócio?

Rimos muito, os três.

Foi aí que eu entendi: o “Cacique de Ramos”, não é um negócio. É uma missão.

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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