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Home Colunas

SOBRE UM MOTORISTA

Por João Baptista Herkenhoff
8 de julho de 2021 - 11:15
em Colunas

Pexels / jeshoots.com - 

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O relevo, que este texto procura dar a um motorista, decorre do reconhecimento da importância e grandeza do trabalho que os motoristas realizam, essencial à vida das cidades e à vida do país. 

O motorista faz fluir a atividade econômica, serve à convivência social e constitui um elo entre os seres humanos. 

Somente nosso saudoso D. João Baptista da Motta e Albuquerque, ao que saiba, é que o chamava de Osmar.  

Sim, porque seu nome civil é Osmar Santos Nogueira.

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D. João, talvez pelo escrúpulo quanto ao dever de tratá-lo com a nobreza merecida, talvez simplesmente porque não gostasse do apelido, recusava-se a chamá-lo de outro nome que não Osmar ou, para ser ainda mais exato, sempre precedia o prenome de um vocativo carinhoso:

“Como vai, meu caríssimo Osmar?”

Com exclusão de D. João todos o conheciam apenas pelo nome de guerra: Tarracha.  

O apelido veio dos tempos em que cumpria o serviço militar no Batalhão de Caçadores sediado em Vila Velha .  

Uma janela, nas dependências do Batalhão, estava a despencar.  O Sargento de guarda teve a idéia de pedir ao recruta Osmar uma sugestão para solucionar o problema.  Osmar, solícito, respondeu com uma receita simples e óbvia:

“Atarracha a dobradiça, Sargento.”

Esse conselho ao superior em apuros foi suficiente para que, com supressão da primeira letra do verbo,  Osmar Santos Nogueira, dali para a frente, fosse bem mais conhecido como “Tarracha”.

Tarracha trabalhava no mais tradicional e popular “ponto de táxi” de Vitória: o ponto da Praça Costa Pereira.

Tarracha foi um exemplo de dignidade, educação, responsabilidade, seriedade. 

Um paradigma moral e humano, no exercício da profissão de motorista, como também um modelo como pessoa, na simplicidade de sua vida e na inteireza de seu caráter.

Esse trabalho árduo, de serviço à coletividade, de atendimento até mesmo gratuito a pessoas doentes e necessitadas, merece o aplauso da comunidade.  

O relevo que este artigo procura dar, com toda justiça, a um motorista, a um trabalhador, remete-me a Cachoeiro, onde todos nós aprendemos belas lições. 

O sentido da igualdade das pessoas, por exemplo.  

E também a grandeza de todo trabalho humano.

Lembro-me, a propósito, de uma crônica de Rubem Braga.  Fala de uma intensa discussão que houve em Cachoeiro, penetrando nos lares e nas escolas, espraiando-se pela nossa praça. 

Debatia-se a melhor denominação a ser conferida a uma instituiçao que veio a ser das mais importantes e tradicionais da cidade.

Tratava-se do “Centro Operário E de Proteção mútua”.

Toda a discussão estava centrada nessa palavrinha “E”.  Venceu a presença do “E”, com grande repercussão na postura da entidade. 

A palavra “E” consolidava uma tese política e social: o Centro Operário não seria apenas um “Centro Operário de Proteção Mútua”.

Estaria aberto a outros cidadãos da cidade, mesmo que não fossem operários, mas que quisessem comungar com os operários o ideal da solidariedade.  

A questão da aliança dos oprimidos com eventuais apoiadores, mesmo que estes não sintam na própria pele  o estigma da opressão, foi e é objeto de elocubrações do pensamento político, no Brasil e no mundo.

É também plataforma de uma militância que alcança amplos setores da sociedade.

Como sempre, Cachoeiro tem a vocação da profecia. 

Há tantos anos atrás lá já se constituía um “Centro Operário E de Proteção Mútua”.

Tenho  grande honra de ser, desde minha juventude, membro do “Centro Operário E de Proteção Mútua”, plantado na minha terra natal.

A homenagem que tributo ao Tarracha recua-me ao que aprendi e vivi em Cachoeiro. 

Tags: ColunaJOÃO BAPTISTA
João Baptista Herkenhoff

João Baptista Herkenhoff

JOÃO BATISTA HERKENHOFF, é Juiz de Direito aposentado. Foi um dos fundadores e primeiro presidente da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Vitória e também um dos fundadores do Comitê Brasileiro da Anistia (CBA/ES). Por seu compromisso com as lutas libertárias, respondeu a processo perante o Tribunal de Justiça (ES), tendo sido o processo arquivado graças ao voto de um desembargador hoje falecido, porém jamais esquecido. Autor de Direitos Humanos: uma ideia, muitas vozes (Editora Santuário, Aparecida, SP).

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