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Home Colunas

DESLIGADO

Por Nilson Lattari
5 de março de 2021 - 09:27
em Colunas

Foto:Kelly Sikkema on Unsplash

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Desligar, desconectar, desjuntar, desunir são alguns dos significados do desligado. Muitos andam por aí meio desligados, por vários motivos, e, entre eles, aqueles que negam a realidade.

O desligado chega ao ponto de cair em um buraco fundo e outro mais desligado ainda lhe perguntar: tudo bem? E o outro responde: tudo. Ou seja, como pode estar tudo bem quando alguém cai em um buraco e tem que acreditar que está tudo bem? No mínimo, o sujeito está dentro de um buraco.

Assim são algumas figuras no nosso entorno. Jura que está tudo bem, mesmo estando dentro de um buraco, porque é preciso manter o clima do “está tudo bem”. Só não pode rir.

O desligado tem a arte de entender os acontecimentos a partir de uma lógica própria. Tem um tipo de botão ao lado da cabeça que é acionado para justificar a mesma resposta, obedecendo as ordens de algum ente, que manda cumprir uma determinada ordem, que diz que está tudo bem, apesar de não restar nada ao redor.

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Esse texto me foi motivado porque, algumas vezes, entro em discussões estéreis nas redes sociais apenas para provocar respostas estapafúrdias, os tais que acionam o botão na cabeça para uma resposta estapafúrdia ou um meme.

Em determinado momento, o sujeito argumentou que a extinção dos dinossauros aconteceu porque eles não acreditavam na Palavra. Eu argumentei que os dinos não falavam, e o sujeito respondeu que não falavam, mas eles entendiam muito bem. Claro, alguns vão dizer que era gozação, mas acredite, não era. É o ato de acionar o cérebro para a mesma resposta mais desconectada, tipo um robô que responde no automático. Ou seja, o sujeito está desligado, mas ligado, tá ligado?

É tipo uma discussão em que alguém diz que um produto vem de um determinado lugar, tipo o Butantan, e o replicante o repreende dizendo que, na verdade, o produto vem … do Butantan. 

Eu não sei se o botão liga ou desliga alguma coisa, esperando que esse liga e desliga possa causar um curto-circuito, e desligar de vez.

É alguma coisa como você ouvir uma proposta absurda, achá-la absurda, e mesmo defendendo-as, como se não fosse absurdo obedecê-la; por mais absurdo que seja.

Enfim, há o desligado por necessidade e o desligado por conveniência. O primeiro quer a distância da realidade por diversos motivos, nenhum deles por conveniência, muitas vezes por sobrevivência. Ouvir a realidade, muitas vezes, causa mais mal do que tentar entendê-la.

O desligado por conveniência é aquele que busca algum benefício, colocando na crença, mais do que na realidade, o alicerce para alcançar o seu objetivo.

Uma outra tática para desconectar a realidade… da realidade é o artifício de transformar tudo em uma imensa comédia. É a piada sem graça, completamente, desconectada do fato, argumentos infantis, o riso forçado que tenta transformar a tragédia em uma comédia, transformando a infantilidade em uma coisa normal. Naturalizando a anormalidade leva à desunião, um grande benefício para aqueles que desejam manter o controle da situação, de um grupo distraído, igual ao boneco do posto.

O caos é a consequência do botão que deixa de funcionar. E liga alguma coisa que não estava programada para acontecer.

Tags: ColunaNilson Lattari
Nilson Lattari

Nilson Lattari

Crônicas e Contos. NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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