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Home Colunas

Vagn, um cometa

Por Ediel Ribeiro
10 de fevereiro de 2020 - 07:43
em Colunas

Tiras do Vagn. (Reprodução)

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Rio de Janeiro – Tem pessoas que passam pela terra rápido, como um cometa. Mas deixam seu rastro, sua luz: foi assim com o cartunista Vagn.

Foi embora tão rápido como surgiu. Brilhante, encantador e sem palavras, como num cartum de Steinberg, seu ídolo.

Vagner Tadeu Horta nasceu em 1946, em Mariana, uma das mais antigas cidades de Minas, mas passou toda a infância em Caratinga, terra natal dos também cartunistas Ziraldo, Zélio, Mayrink, Edra e Lane.

Surgiu com aura de gênio do humor no suplemento “O Centavo”, da maior revista da época, “O Cruzeiro”.

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Publicou seus trabalhos, também, no jornal “Correio da Manhã”, “Jornal do Brasil”, “O Sol”, “Jornal dos Sports”, “O Pasquim” e na “Revista da Shell”, “Diner´s” e “Fairplay”.

Filho de um fiscal e de uma mãe de origem alemã – criada em colégio de freiras – Vagn lia muito, desde Sartre até Guimarães Rosa, passando por Gorki e Kafka.

Chegou ao Rio numa madrugada de 1967. 

Sonolento e carregando uma velha mala de couro, levou uma “dura” da polícia e foi enganado por um motorista de táxi inescrupuloso que o levou até o Solar da Fossa, em Botafogo.

Sem um níquel para começar a vida no Rio, Vagn teve ajuda do compatriota Ziraldo e sua esposa Vilma Gontijo.

Vilma, por sinal, foi quem sintetizou seu nome artístico de Wagner para Wagn. Mas ele trocou e “W” pelo “V” e passou a assinar Vagn.

Vagn tinha um traço sintético, na linha de Saul Steinberg, um cartunista romeno que viveu nos Estados Unidos e influenciou gerações de artistas em todo o mundo. 

Entre os brasileiros, Vagn e Millôr Fernandes beberam da fonte do romeno. Muita coisa do traço do Millôr é do Steinberg. O cartunista carioca chegou a ter um livro recolhido porque um desenho de Steinberg foi atribuído a ele.

Por conta dessa influência, no auge d´O Pasquim, Paulo Francis – tão genioso quanto genial – escreveu que Vagn não passava de um imitador de Steinberg, que não mostrou nada de novo em seus desenhos.

Ziraldo saiu em defesa do amigo: “O Francis já tinha feito isso com a Tônia Carrero; fez uma crítica tão violenta à atriz que levou um soco do marido dela, na época, o Adolfo Celi”.

Na fase mais criativa e crítica do seu trabalho, passou a desenhar cavalos com a bandeira nacional estilizada no ventre do animal, passando a ser perseguido pelos militares.

Foi preso e teve seu nome incluído na lista do AI-5 (Ato Institucional número 5), conhecido instrumento de força da Ditadura Militar.

Torturado física e psicologicamente, o cerceamento da liberdade transtornou-o de modo grave e perpétuo.

Posto em liberdade, confuso, doente e em choque, tentou se matar. Sobreviveu, mas foi internado no Instituto Philippe Pinel, um hospital psiquiátrico localizado no bairro de Botafogo, no Rio. 

No “Pinel”, super doses de medicamentos e a depressão acabaram por matá-lo, precocemente, no dia 24 de julho de 1970, aos 23 anos.

Ziraldo, em 2007, escreveu um texto em homenagem ao amigo na contra-capa do livro “Ninguém Segura Caratinga”, dedicado a Vagn:

“Este livro é uma homenagem à mais doce das figuras que Caratinga mandou para o mundo e o mundo mandou para o céu: o Vagn.

Ele foi inspiradíssimo e um surpreendente desenhista de humor que encantou a jovem intelligentsia carioca nos agitados anos da repressão”.

Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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