Cidade operária, berço da Vale e historicamente ligada à extração mineral, Itabira voltou a dar maioria dos votos a Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial de 2026 e reforçou uma tendência que acompanha o município há mais de duas décadas.
Desde a primeira eleição de Lula, em 2002, candidatos do PT venceram em Itabira seis das sete disputas presidenciais decididas no segundo turno.
A sequência começou com Lula, passou pelas duas eleições de Dilma Rousseff, foi interrompida pela vitória de Jair Bolsonaro em 2018 e voltou a aparecer com Lula em 2022 e 2026. Os dados históricos são do Tribunal Superior Eleitoral.
Na eleição deste ano, Itabira apresentou uma particularidade desde o primeiro turno.
Enquanto Flávio Bolsonaro terminou a primeira votação na frente em Minas Gerais e no país, em Itabira o mais votado já havia sido Lula.
O presidente recebeu 30.883 votos, 45,78% dos válidos, contra 29.588 de Flávio, 43,86%. A diferença inicial foi pequena: 1.295 votos.
No segundo turno, a distância aumentou de forma significativa.
Lula chegou a 39.545 votos, 55,35% dos válidos. Flávio terminou com 31.906, ou 44,65%.
A vantagem do presidente em Itabira passou para 7.639 votos.
Entre um turno e outro, Lula acrescentou 8.662 votos à sua votação na cidade. Flávio ganhou outros 2.318.
O crescimento do petista foi suficiente para transformar uma disputa apertada no primeiro turno em uma vitória superior a dez pontos percentuais no segundo.
Itabira também votou de forma mais favorável a Lula do que o conjunto de Minas Gerais.
No estado, o segundo turno terminou praticamente dividido: 50,43% para Lula e 49,57% para Flávio, uma diferença de apenas 109.313 votos.
Em Itabira, a vantagem de Lula foi de 10,7 pontos percentuais.
Uma história que começa em 2002
O comportamento eleitoral de Itabira nas últimas décadas mostra que a vitória de 2026 não foi isolada.
Na eleição de 2002, quando Lula chegou pela primeira vez à Presidência, o resultado na cidade foi amplo: 48.411 votos para o petista, 81,79% dos válidos, contra 18,21% de José Serra.
Quatro anos depois, em 2006, Lula voltou a vencer com folga. Recebeu 45.499 votos, 70,82%, enquanto Geraldo Alckmin ficou com 29,18%.
A preferência se manteve quando Lula deixou o Planalto e Dilma Rousseff disputou a sucessão.
Em 2010, Dilma recebeu 40.318 votos no segundo turno, 62,90%, contra 37,10% de José Serra.
Em 2014, a disputa foi bem mais apertada. Minas Gerais era o estado de Aécio Neves, e o tucano havia vencido o primeiro turno em Itabira. Na votação decisiva, porém, Dilma virou o resultado no município e terminou com 36.160 votos, 52%, contra 33.385, 48%, de Aécio.
Foi a quarta eleição presidencial consecutiva em que a candidatura petista venceu na cidade.
2018 interrompe sequência
A ruptura aconteceu em 2018.
Naquele ano, Jair Bolsonaro venceu em Itabira tanto no primeiro quanto no segundo turno.
Na votação final, Bolsonaro recebeu 35.136 votos, 58,21%, enquanto Fernando Haddad ficou com 25.229, ou 41,79%.
Foi a única eleição presidencial desde 2002 em que uma candidatura adversária do PT venceu o segundo turno no município.
Quatro anos depois, o cenário voltou a mudar.
Em 2022, Lula já liderou o primeiro turno em Itabira, com 50,16% dos votos válidos, contra 38,96% de Jair Bolsonaro.
No segundo turno, o petista ampliou a votação e chegou a 38.302 votos, 53,77%, enquanto Bolsonaro recebeu 32.928, 46,23%.
Em 2026, Lula não apenas repetiu a vitória como aumentou sua participação: passou de 53,77% para 55,35% dos votos válidos da cidade.
Em números absolutos, saiu de 38.302 votos em 2022 para 39.545 neste ano.
Cidade operária moldada pelo minério
O histórico eleitoral presidencial se desenvolve numa cidade cuja formação econômica e social foi profundamente influenciada pela mineração e pelo trabalho industrial.
A própria Vale define sua história como uma trajetória “de Itabira para o mundo”. A antiga Companhia Vale do Rio Doce nasceu no município em 1º de junho de 1942, durante o governo Getúlio Vargas, para explorar e transportar o minério de ferro da região.
A expansão da empresa mudou a cidade.
Milhares de trabalhadores foram atraídos pelas minas, bairros operários foram construídos e a própria organização urbana passou a acompanhar as necessidades da atividade mineral.
Estudos sobre a formação de Itabira registram bairros destinados aos trabalhadores, como o Campestre, além de vilas operárias construídas durante a expansão da Companhia Vale do Rio Doce.
Um estudo publicado pela Universidade Federal de Minas Gerais chega a descrever Itabira a partir de duas identidades que convivem no município: de um lado, a “cidade operária mineradora”; do outro, a cidade cultural associada a Carlos Drummond de Andrade.
A mineração permanece como uma das marcas centrais do município. Itabira é conhecida como Cidade do Ferro, e sua história econômica continua ligada às jazidas que transformaram uma empresa criada no interior de Minas em uma das maiores mineradoras do mundo.
É nesse cenário de forte presença do trabalho industrial que se construiu também o histórico eleitoral recente da cidade.
Seis vitórias em sete eleições
O retrospecto dos segundos turnos presidenciais desde 2002 resume essa trajetória:
2002: Lula, 81,79%
2006: Lula, 70,82%
2010: Dilma, 62,90%
2014: Dilma, 52%
2018: Jair Bolsonaro, 58,21%
2022: Lula, 53,77%
2026: Lula, 55,35%
Em sete eleições presidenciais, seis terminaram com vitória da candidatura do PT em Itabira.
O resultado de 2026 tem ainda uma característica própria.
No primeiro turno, enquanto Minas Gerais dava 48,24% a Flávio e 43,33% a Lula, Itabira já havia colocado o petista à frente.
No segundo, Minas virou por margem estreita.
Itabira ampliou.
Lula saiu de uma vantagem de 1.295 votos para 7.639 e terminou com percentual superior ao alcançado quatro anos antes contra Jair Bolsonaro.
Na cidade onde nasceu a Vale, onde bairros inteiros foram formados para receber trabalhadores da mineração e onde a extração de ferro moldou a economia e o espaço urbano, a eleição de 2026 acrescentou mais um capítulo a um histórico presidencial que, desde 2002, tem sido majoritariamente favorável à esquerda.


