SÉRIE ESPECIAL | O MAPA DA VIOLÊNCIA EM MINAS · REPORTAGEM 2
A violência letal em Minas Gerais não está concentrada nas maiores cidades. Um levantamento exclusivo produzido pelo Crime Brasil para O Folha de Minas mostra que municípios do interior apresentam taxas de homicídios muito superiores às de Belo Horizonte e de outros grandes centros urbanos. Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, lidera o ranking entre as 72 cidades mineiras com mais de 50 mil habitantes.
Entre 2020 e 2024, Governador Valadares registrou uma média anual de 34,7 mortes por agressão a cada 100 mil habitantes, quase três vezes a taxa de Minas Gerais, de 12,6. Para se ter uma ideia da diferença, Belo Horizonte apresentou uma taxa de 12,3 no mesmo período.
Logo atrás de Governador Valadares aparecem Viçosa, na Zona da Mata, com 33,1 mortes por 100 mil habitantes, e Timóteo, no Vale do Aço, com 29,5. Paracatu e Manhuaçu completam as cinco primeiras posições. Todas apresentam índices superiores ao dobro da média mineira.
O estudo, elaborado a partir de dados do Ministério da Saúde e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que 30 dos 72 municípios analisados apresentam taxas acima da média estadual.

Violência ultrapassa os grandes centros
O mapa da violência elaborado pelo Crime Brasil mostra uma concentração de taxas elevadas no leste de Minas, especialmente no Vale do Rio Doce e no Vale do Aço, além de municípios do Noroeste mineiro. No Sul do estado, os indicadores são, em geral, menores.
Esse cenário ajuda a mostrar que o tamanho de uma cidade não determina, necessariamente, o risco de morrer por violência. Uberlândia, por exemplo, uma das maiores cidades mineiras, registrou taxa de 6,6 mortes por 100 mil habitantes, menos da metade da média estadual. Montes Claros apresentou 7,3.
A diferença também pode ser observada na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Contagem registrou taxa histórica de 11,7, enquanto Betim, na mesma região, chegou a 23,8, quase o dobro.
Em Itabira, no Médio Piracicaba, foram contabilizadas 101 mortes por agressão entre 2020 e 2024, correspondentes a uma média anual de 17,2 por 100 mil habitantes, também superior à registrada no conjunto de Minas.
Entre os municípios com mais de 50 mil moradores, Guaxupé, no Sul de Minas, apresentou a menor taxa do levantamento: 3,8 mortes por 100 mil habitantes.
Números recentes mostram mudanças
Embora Governador Valadares lidere o ranking histórico, os registros mais recentes mostram uma redução expressiva dos homicídios na cidade.
Entre janeiro e julho de 2026, foram contabilizados 21 homicídios consumados, contra 40 no mesmo período do ano passado. A queda foi de 47,5%.
Timóteo também apresentou redução pela metade, passando de 12 para seis registros. Em Viçosa, o número permaneceu estável, com cinco ocorrências nos primeiros sete meses de cada ano.
A melhora, porém, não foi observada em todos os municípios. Coronel Fabriciano, também no Vale do Aço, registrou aumento de dez para 15 homicídios no período, enquanto Curvelo passou de oito para 13.

As diferenças entre o ranking histórico e os números mais recentes mostram como o comportamento da violência pode mudar de uma cidade para outra. Uma localidade que acumulou taxas elevadas durante vários anos pode apresentar redução nos registros atuais, enquanto outras seguem na direção contrária.
Para construir o ranking, o Crime Brasil utilizou os registros de mortes por agressão do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, entre 2020 e 2024. Já a comparação de 2026 considera os homicídios registrados pelas autoridades policiais de janeiro a julho.
Uma década de mudanças em Minas
O cenário estadual também passou por mudanças importantes. Em 2014, Minas Gerais registrou 4.718 mortes por agressão. Dez anos depois, em 2024, foram 2.692, uma redução de aproximadamente 43%.
A queda mais acentuada ocorreu até 2020. Nos quatro anos seguintes, a taxa de mortes por agressão permaneceu praticamente estável, oscilando entre 12 e 13 por 100 mil habitantes.
Os registros policiais voltaram a apontar redução em 2025, tendência que continuou nos primeiros sete meses de 2026. Nesse período, Minas contabilizou 1.135 homicídios consumados, contra 1.281 no mesmo intervalo de 2025, queda de 11,4%.
Mas, como mostra o levantamento, a redução estadual não se distribui igualmente entre os municípios. Enquanto Governador Valadares e Timóteo apresentam diminuição recente dos homicídios, cidades como Coronel Fabriciano, Contagem e Belo Horizonte registram aumento.
Esta é a segunda reportagem da série especial O mapa da violência em Minas, publicada às quartas-feiras pelo O Folha de Minas, com dados exclusivos do Crime Brasil. Na próxima edição, o jornal mostrará o crescimento dos registros de estupro em Itabira, que mais que dobraram nos primeiros sete meses de 2026.


