Médicos que trabalham em unidades de terapia intensiva (UTIs) avaliam de forma mais positiva as condições encontradas na rede privada do que nos serviços públicos em 12 dos 13 aspectos analisados em um levantamento nacional sobre a assistência a pacientes graves.
O Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica nas UTIs Brasileiras ouviu 2.338 profissionais de 26 estados e do Distrito Federal. O estudo foi realizado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), com apoio do Conselho Federal de Medicina (CFM), e avaliou formação, distribuição dos profissionais, mercado e condições de trabalho, saúde mental e perspectivas da carreira.
Os participantes deram notas de zero a cinco para itens como infraestrutura, disponibilidade de medicamentos e leitos, presença de profissionais especializados, protocolos de atendimento e organização dos fluxos de pacientes.
Os resultados representam a percepção dos médicos que atuam nas UTIs, e não uma auditoria direta da qualidade de cada hospital ou unidade.
Uma das maiores diferenças aparece na disponibilidade de medicamentos essenciais. Entre os entrevistados, 57,7% deram nota máxima para esse item nas UTIs privadas ou vinculadas a planos de saúde. No SUS, o percentual foi de 22,7%.
No sentido inverso, 16,1% classificaram a disponibilidade de medicamentos na rede pública como inadequada ou totalmente inadequada. Nas unidades privadas, essa avaliação foi feita por 3,8% dos médicos.
Leitos e protocolos também apresentam diferença
A disponibilidade de leitos foi considerada totalmente adequada por 51,4% dos médicos quando avaliaram o setor privado. Nas UTIs públicas, 24,1% deram a mesma nota.
Nas avaliações negativas, a diferença foi ainda maior: 32,6% deram notas entre zero e dois para a disponibilidade de leitos no SUS, contra 7,7% na rede privada.
O resultado acompanha outro levantamento divulgado pela Amib neste ano. Segundo a entidade, apesar da expansão da terapia intensiva no país na última década, pacientes que dependem exclusivamente do SUS ainda enfrentam maior dificuldade de acesso aos leitos. A distribuição também varia de forma significativa entre as regiões brasileiras.
Nos protocolos de atendimento e conduta clínica, 23,1% dos entrevistados deram nota máxima às UTIs públicas, enquanto 40,2% fizeram essa avaliação na rede privada.
Entre as notas mais baixas, os percentuais foram de 27,4% no SUS e 14,3% nos serviços particulares ou vinculados a planos.
A única das 13 áreas avaliadas em que não houve diferença expressiva entre os dois segmentos foi a relacionada às tarefas administrativas e burocráticas.
Equipes especializadas
A pesquisa também identificou diferença na percepção sobre a composição das equipes.
A presença de uma equipe multiprofissional especializada recebeu nota máxima de 39,2% dos médicos na rede privada e de 23% na pública.
Já entre as avaliações mais baixas, o índice chegou a 24,8% nas UTIs do SUS e a 13,8% nas particulares.
Quando os médicos foram questionados especificamente sobre a presença de enfermeiros com formação em terapia intensiva, 25,1% avaliaram positivamente o setor privado, contra 16,9% no público.
As notas negativas chegaram a 37,2% nos serviços do SUS e a 26,4% nos particulares.
O próprio inquérito identificou desigualdades na formação dos médicos que trabalham em terapia intensiva. Segundo a Amib, profissionais com Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em Medicina Intensiva estão mais concentrados nas regiões Sudeste e Sul, enquanto Norte e Nordeste apresentam proporcionalmente maior presença de médicos sem qualificação específica na área.
Amib pede melhorias além da abertura de leitos
Para a Amib, os resultados mostram que a discussão sobre terapia intensiva não deve se limitar à abertura de novos leitos.
A entidade defende investimentos em infraestrutura, medicamentos, equipes especializadas, organização dos serviços, protocolos e condições de trabalho.
Segundo a associação, medidas de melhoria podem alcançar 43.901 leitos de UTI distribuídos pelo país, sendo 34.927 destinados a adultos e 8.974 à assistência pediátrica e neonatal.
O diagnóstico será apresentado a gestores públicos e privados e a órgãos de fiscalização e controle. A entidade também defende políticas para ampliar a formação especializada e estimular a permanência de intensivistas em regiões onde há menor disponibilidade desses profissionais.
As condições de trabalho aparecem em outra parte do mesmo inquérito. Foram identificados 3.112 vínculos entre os 2.338 médicos participantes, média de 1,33 contrato por profissional. Quase metade dos entrevistados, 48,5%, também apresentou nível elevado de esgotamento emocional.
Para a Amib, melhorar as condições estruturais e de trabalho nas UTIs tem impacto tanto sobre os profissionais quanto sobre a segurança e a qualidade da assistência prestada aos pacientes graves.


