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Na Globo, Flávio é corrigido por informações falsas e evita detalhar propostas

Candidato desviou perguntas para ataques a Lula, foi confrontado por Renata Lo Prete sobre declarações sem comprovação e não explicou como pretende alcançar corte de R$ 200 bilhões

Por Redação
17 de outubro de 2026 - 08:36
em Brasil
Na Globo, Flávio é corrigido por informações falsas e evita detalhar propostas

Foto: Manoella Mello/TV Globo

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A entrevista de Flávio Bolsonaro (PL) à TV Globo, na noite desta sexta-feira (16), foi marcada por embates com a jornalista Renata Lo Prete, ataques recorrentes ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), respostas que fugiram das perguntas e afirmações posteriormente classificadas como falsas ou enganosas por agências de checagem.

Ao longo de pouco mais de 40 minutos, Flávio foi questionado sobre economia, Banco Master, segurança pública, escala 6×1, Supremo Tribunal Federal, 8 de Janeiro e participação de familiares em um eventual governo.

Em diferentes momentos, Lo Prete interrompeu o candidato para tentar retomar perguntas ou contestar informações apresentadas por ele como fatos.

Levantamento feito pelo Terra a partir da entrevista identificou 28 menções nominais a Lula nas respostas de Flávio. Em várias delas, o candidato partiu do tema apresentado pela jornalista e rapidamente direcionou a resposta para críticas ao adversário.

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Isso ocorreu logo na discussão econômica.

Questionado se pretendia desvincular aposentadorias do salário mínimo, retirar o ganho real do piso nacional ou alterar os mínimos constitucionais de saúde e educação, Flávio respondeu com negativas curtas.

Ao ser pressionado para explicar como realizaria o ajuste fiscal prometido por sua campanha, voltou a citar o adversário.

“O maior ajuste fiscal que o Brasil pode fazer é tirar o Lula”, afirmou.

R$ 200 bilhões sem conta fechada

Flávio promete um ajuste de aproximadamente R$ 200 bilhões nas contas públicas.

Lo Prete insistiu para que explicasse de onde sairia esse valor, já que o candidato havia acabado de descartar cortes em aposentadorias, salário mínimo, saúde, educação e programas sociais.

Flávio citou a extinção de pelo menos dez ministérios, redução de cargos, combate à corrupção, mudanças na gestão das estatais, securitização de dívidas da União, utilização de inteligência artificial e venda ou melhor aproveitamento de imóveis federais.

O próprio candidato reconheceu que a extinção de ministérios, isoladamente, não seria suficiente para alcançar a economia prometida.

Ao falar das estatais, afirmou que as empresas federais acumulam R$ 36 bilhões em prejuízos durante o governo Lula e relacionou o resultado a corrupção e má gestão.

Checagem do UOL encontrou déficit acumulado de aproximadamente R$ 23,8 bilhões nos períodos disponíveis. Durante a entrevista, Flávio não apresentou casos específicos de corrupção nas estatais que justificassem a afirmação.

Outra fonte apontada pelo candidato para o ajuste foi o patrimônio imobiliário da União.

Flávio afirmou que pretende levantar cerca de R$ 200 bilhões com imóveis federais.

A ideia não é nova. Trata-se da mesma estratégia defendida por Paulo Guedes durante o governo Jair Bolsonaro. Em 2019, o então ministro da Economia chegou a projetar arrecadação de até R$ 1 trilhão com a alienação de imóveis públicos.

Dados da Secretaria de Patrimônio da União, porém, mostram que, entre 2019 e 2022, foram vendidos 280 imóveis, com arrecadação de aproximadamente R$ 722 milhões, valor muito inferior às projeções feitas no início daquele governo.

Petróleo só produziria receita anos depois

Flávio também citou a exploração de petróleo na Margem Equatorial como uma das fontes de recursos capazes de melhorar as contas públicas.

Segundo o candidato, a atividade poderia gerar mais de R$ 100 bilhões “de largada” em receitas e royalties.

Lo Prete lembrou que uma eventual produção comercial na região está prevista apenas para a próxima década.

Atualmente, a operação na área da Foz do Amazonas está em fase exploratória. A perfuração busca verificar se existem reservas comercialmente viáveis. Mesmo em caso de descoberta, ainda serão necessários estudos, desenvolvimento do campo e novas autorizações ambientais antes do início da produção.

A Petrobras trabalha com horizonte de produção na região a partir de 2033, caso as reservas sejam confirmadas e o projeto avance.

A Lupa classificou como enganosa a utilização desses recursos como receita disponível no curto prazo e também apontou como falsa a declaração de Flávio de que a exploração da Margem Equatorial já constava do programa de governo de Jair Bolsonaro em 2022.

Vorcaro leva entrevista a um dos momentos mais tensos

Um dos momentos de maior confronto ocorreu quando Renata Lo Prete perguntou sobre os recursos de Daniel Vorcaro destinados ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

Flávio solicitou ao ex-controlador do Banco Master aproximadamente R$ 134 milhões para a produção. Investigações apontam que cerca de R$ 61 milhões foram efetivamente repassados.

A jornalista perguntou por que o valor solicitado era muito superior aos aproximadamente R$ 75 milhões apontados por uma perícia privada como custo da produção e questionou ainda a passagem de parte dos recursos por um fundo nos Estados Unidos.

Flávio afirmou que a produtora havia “prestado contas de tudo”.

A declaração foi classificada como falsa por Lupa, UOL Confere e Aos Fatos. A documentação divulgada pela produtora não apresenta publicamente notas fiscais, extratos e outros registros suficientes para permitir o acompanhamento integral da origem e da destinação dos valores movimentados.

Durante a resposta, Flávio passou a questionar as relações comerciais de Vorcaro com a própria Globo.

Citou Luciano Huck e afirmou que o apresentador teria recebido cerca de R$ 160 milhões relacionados ao Banco Master.

Mensagens divulgadas pela imprensa mencionam cerca de R$ 83 milhões em publicidade do Will Bank, instituição que pertenceu ao grupo Master, além de outros valores relacionados a um negócio pessoal envolvendo Huck. Os registros disponíveis não demonstram um pagamento de R$ 160 milhões ao apresentador nos termos apresentados pelo candidato.

Flávio também citou Frederic Kachar, então diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio do Grupo Globo, demitido depois da divulgação de mensagens que revelaram relação considerada inadequada pela empresa com Vorcaro.

Renata confirmou a demissão e explicou que contratos publicitários da empresa e o financiamento privado de um filme sobre um político são situações distintas.

“Não está confirmado pela PF”

Na sequência, Flávio mencionou um suposto pagamento de R$ 30 milhões de Vorcaro para financiar um documentário sobre Lula.

A versão circulou a partir de um áudio atribuído ao banqueiro.

“Tá confirmado pela Polícia Federal”, afirmou Flávio.

Lo Prete imediatamente respondeu:

“Não está confirmado pela PF.”

A jornalista disse que a entrevista seria conduzida a partir de fatos confirmados por investigações oficiais ou pela apuração jornalística da Globo.

A Polícia Federal já havia divulgado nota informando que Vorcaro não prestou depoimento com aquele conteúdo e não entregou documentos ou informações sobre o suposto financiamento.

A Procuradoria-Geral da República também negou ter recebido depoimento com essa informação, enquanto a defesa do próprio Vorcaro afirmou que não reconhecia a versão divulgada.

A Lupa classificou como falsa a declaração de Flávio de que o suposto repasse havia sido confirmado pela Polícia Federal.

Flávio fala em recorde de queimadas, mas dados mostram cenário diferente

Outra informação incorreta surgiu quando o candidato falou sobre meio ambiente.

“Esse foi o outubro com maior queimada na história da nação brasileira”, afirmou.

Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais não sustentam a declaração.

Até 15 de outubro, a Amazônia havia registrado 9.544 focos de calor, número distante dos maiores registros da série histórica do Inpe, iniciada em 1989.

Dados recentes também mostram redução de queimadas e de áreas atingidas pelo fogo em diferentes biomas brasileiros em comparação com períodos anteriores.

8 de Janeiro e a “senhorinha com Bíblia”

O deslocamento das respostas para outros temas voltou a ocorrer quando Renata perguntou sobre os ataques de 8 de janeiro de 2023.

A jornalista citou a invasão e destruição das sedes dos Três Poderes, agressões contra policiais e depredação do patrimônio público e perguntou como os responsáveis deveriam ser punidos.

Flávio reconheceu que agressões e depredações precisam ser punidas, mas negou que os acontecimentos constituíssem tentativa de golpe e voltou a defender Jair Bolsonaro, condenado pelo STF a 27 anos e três meses.

“Agora, não dá para querer dizer que uma senhorinha com Bíblia, um cara vendendo algodão-doce no meio da manifestação, está tentando dar golpe”, declarou.

Os processos julgados pelo Supremo, entretanto, não trataram os condenados simplesmente por estarem no local ou portarem uma Bíblia. As decisões analisaram individualmente diferentes condutas relacionadas à invasão, depredação dos prédios públicos e participação nos atos contra os Três Poderes.

Quando Lo Prete tentou retomar a pergunta, Flávio passou a falar da Faixa Azul para motociclistas em São Paulo.

Disse que Lula estaria impedindo a expansão do programa por “birra” com o prefeito Ricardo Nunes.

A Faixa Azul é um projeto experimental da Prefeitura de São Paulo cuja expansão depende de análises técnicas da Secretaria Nacional de Trânsito. O Ministério dos Transportes afirma que estudos sobre o programa continuam em andamento, inclusive com avaliação dos relatórios produzidos pela CET.

Lo Prete então voltou a lembrar ao candidato que a pergunta era sobre as pessoas que invadiram prédios públicos, depredaram patrimônio e atacaram policiais no 8 de Janeiro.

Checagens apontam outras declarações falsas ou enganosas

Após a sabatina, diferentes equipes de checagem analisaram as declarações do candidato.

A Lupa classificou como falsas, entre outras, as afirmações de que a Polícia Federal havia confirmado dinheiro de Vorcaro para um filme sobre Lula, de que a produtora de Dark Horse havia prestado contas integralmente dos recursos, de que Flávio Dino teria entrado sem proteção policial no Complexo da Maré e de que estudos teriam descartado relação entre maior circulação de armas e violência.

O Aos Fatos também encontrou informações falsas, imprecisas ou enganosas nas declarações sobre criminalidade, fechamento de empresas, migração empresarial para o Paraguai, financiamento de Dark Horse, Margem Equatorial e os atos de 8 de Janeiro.

Outros dados citados pelo candidato estavam corretos, entre eles a dívida bruta brasileira próxima de R$ 11 trilhões e a troca de grande parte dos superintendentes regionais da Polícia Federal durante o atual governo.

Fim da 6×1 e respostas diretas

Em alguns temas, Flávio respondeu diretamente.

Disse que não tentará reverter o fim da escala 6×1, promulgado pelo Congresso poucas horas antes da entrevista, apesar de ter criticado anteriormente a medida.

Também afirmou que não pretende desvincular aposentadorias do salário mínimo, retirar a política de ganho real do piso nacional nem alterar os mínimos constitucionais de saúde e educação.

Prometeu governar por apenas um mandato e afirmou que respeitará o resultado da eleição caso seja derrotado.

Sobre Eduardo Bolsonaro, descartou nomeá-lo chanceler.

Em relação ao pai, disse que não discutiu um cargo para Jair Bolsonaro em eventual governo, mas reafirmou que pretende conceder indulto ao ex-presidente caso seja eleito.

Ajuste de R$ 200 bilhões ficou sem detalhamento

Flávio encerrou a entrevista tendo apresentado algumas propostas: reduzir ministérios, utilizar patrimônio imobiliário da União, securitizar créditos, explorar petróleo na Margem Equatorial, ampliar o acesso a armas, endurecer ações contra facções criminosas e acabar com a reeleição.

A principal promessa econômica, porém, permaneceu sem detalhamento suficiente para demonstrar como o governo conseguiria atingir os R$ 200 bilhões de ajuste fiscal citados durante a campanha.

Em diversos momentos em que Renata Lo Prete insistiu por números ou medidas concretas, Flávio voltou a direcionar a resposta para críticas ao presidente Lula.

Lula e Flávio voltam a se encontrar neste domingo (18), no debate da Band. A Globo marcou o último debate presidencial para 23 de outubro, dois dias antes do segundo turno realizado em 25 de outubro.

Tags: 8 de janeiroBanco MasterDaniel VorcaroDark Horseeleições 2026escala 6x1fake newsFlávio BolsonaroLulaMargem EquatorialpolíticaRenata Lo Pretesegundo turnoTV Globo
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