A Polícia Federal abriu uma nova frente de investigação para apurar as condições do financiamento de R$ 3,1 milhões concedido pelo Banco de Brasília (BRB) a Flávio Bolsonaro (PL) para a compra de uma mansão de R$ 5,97 milhões em uma das áreas mais valorizadas da capital federal.
O empréstimo foi contratado em 2021, quando o BRB era presidido por Paulo Henrique Costa, atualmente preso no âmbito das investigações sobre o Banco Master, de Daniel Vorcaro.
O financiamento chama a atenção da PF pelas condições em que foi concedido. Flávio obteve taxa efetiva de juros de 3,71% ao ano, mais correção pelo IPCA, enquanto a referência média praticada pelo próprio BRB naquele período era de aproximadamente 4,85% ao ano.
O contrato previa 360 meses — 30 anos — para pagamento. Apesar do longo prazo, Flávio quitou todo o financiamento em cerca de três anos.
A investigação, revelada pela jornalista Bela Megale, de O Globo, integra o inquérito que apura as relações entre BRB e Banco Master. A PF analisa dados de uma auditoria independente contratada pelo próprio BRB para verificar as circunstâncias da aprovação do crédito e se houve flexibilização das regras internas para beneficiar o senador.
Empréstimo de 30 anos foi quitado em seis grandes pagamentos
Flávio e a mulher, Fernanda Bolsonaro, financiaram R$ 3,1 milhões dos R$ 5,97 milhões pagos pelo imóvel.
O contrato previa prestações ao longo de três décadas. A parcela inicial era de aproximadamente R$ 18,7 mil mensais, pelo Sistema de Amortização Constante (SAC), com saldo devedor corrigido pela inflação.
A dívida, entretanto, foi encerrada em 2024.
Documentos apresentados à Justiça mostram que o senador desembolsou aproximadamente R$ 3,4 milhões em seis grandes pagamentos, realizados entre novembro de 2022 e março de 2024.
Foram pagamentos de cerca de R$ 698 mil e R$ 697 mil em novembro de 2022; R$ 997 mil em janeiro de 2023; R$ 250 mil em agosto de 2023; R$ 199 mil em setembro de 2023; e R$ 520 mil em março de 2024, quando o financiamento foi encerrado.
Assim, um contrato originalmente previsto para terminar três décadas depois foi liquidado aproximadamente 27 anos antes do prazo.
Flávio declarou renda mensal de R$ 56,8 mil
Documentos do processo judicial que discutiu o financiamento mostram que Flávio declarou ao BRB renda mensal de R$ 56.833,51 quando obteve o crédito.
Do total informado ao banco, R$ 24.934,81 correspondiam ao salário parlamentar, R$ 3.372,87 a aplicações financeiras e R$ 28.525,83 — aproximadamente metade da renda declarada — à franquia de chocolates da qual era sócio.
A mulher do senador teve renda presumida de R$ 8.650. A renda considerada pelo banco para o casal chegou, portanto, a aproximadamente R$ 65,5 mil mensais.
Os números conhecidos inicialmente eram diferentes. A escritura do imóvel apontava renda líquida conjunta de aproximadamente R$ 36,9 mil, enquanto simulação disponível no BRB indicava, na época, necessidade de renda mínima próxima de R$ 46,4 mil para contratar financiamento naquelas condições.
A divergência foi posteriormente explicada pela documentação apresentada no processo, que mostrou a renda de R$ 56,8 mil declarada por Flávio diretamente ao banco.
Quando a quitação antecipada veio a público, em 2024, o senador afirmou possuir rendimentos como parlamentar, empresário e advogado e declarou que os recursos utilizados eram lícitos e provenientes de seu trabalho.
Juros ficaram abaixo da referência do BRB
Outro ponto agora analisado pela PF é a taxa de juros.
O contrato estabeleceu taxa nominal reduzida de 3,65% ao ano mais IPCA. Com os encargos, a taxa efetiva chegava a 3,71% ao ano.
Para obter a condição reduzida, Flávio precisava manter relacionamento com o BRB, incluindo portabilidade do salário e contratação de produtos bancários, como cartão de crédito e cheque especial.
Sem essas condições, estava prevista uma “taxa de balcão” de 4,75%.
Os dados agora examinados pela Polícia Federal, entretanto, indicam que a média praticada pelo próprio BRB naquele período ficava em aproximadamente 4,85% ao ano.
A diferença entre as condições oferecidas ao senador e a referência praticada pela instituição é um dos pontos que a investigação busca esclarecer.
Mansão tem 1,1 mil metros quadrados de área construída
A propriedade fica no Setor de Mansões Dom Bosco, no Lago Sul, uma das regiões de maior valorização imobiliária de Brasília.
O terreno possui aproximadamente 2,5 mil metros quadrados, com cerca de 1,1 mil metros quadrados de área construída.
O anúncio de venda do imóvel descrevia quatro suítes, sendo uma suíte principal com hidromassagem, closet e academia, além de brinquedoteca.
Na área externa, a propriedade possui piscina, spa com aquecimento solar, espaço gourmet e oito vagas de garagem, quatro cobertas e quatro descobertas.
Flávio e Fernanda compraram a propriedade em janeiro de 2021 por R$ 5,97 milhões. Pouco mais da metade do valor — R$ 3,1 milhões — foi financiada pelo BRB.
Presidente do BRB na época está preso no caso Master
A nova investigação ganha outra dimensão devido ao momento em que o financiamento foi aprovado.
Quem comandava o BRB em 2021 era Paulo Henrique Costa.
Costa foi preso pela Polícia Federal em abril deste ano em uma das fases da Operação Compliance Zero, que investiga as relações entre o BRB e o Banco Master, de Daniel Vorcaro.
A PF investiga operações bilionárias realizadas entre as duas instituições e as circunstâncias da tentativa de aquisição do Master pelo banco público de Brasília.
Documentos da investigação apontam que o BRB transferiu cerca de R$ 12,2 bilhões ao Master por meio da aquisição de carteiras de crédito que passaram a ser investigadas por suspeita de fraude.
Segundo a investigação, parte das operações teria servido para fornecer liquidez ao Master, que enfrentava dificuldades financeiras.
Costa também é investigado por suspeitas relacionadas à negociação para a compra do banco de Vorcaro pelo BRB.
É dentro desse inquérito mais amplo que a Polícia Federal passou agora a examinar o financiamento concedido a Flávio Bolsonaro quatro anos antes.
Vorcaro também aparece ligado a Flávio
A investigação ocorre ainda em meio às apurações sobre a relação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro.
O banqueiro aparece em outra frente investigativa relacionada ao financiamento do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
As investigações sobre o Master ampliaram o escrutínio sobre negócios, transferências financeiras e relações mantidas por Vorcaro com políticos e integrantes do sistema financeiro.
No caso específico da mansão, porém, a apuração da PF está concentrada nas condições oferecidas pelo BRB, nos critérios utilizados para aprovação do financiamento e na eventual flexibilização das normas internas da instituição.
Operação já havia sido questionada na Justiça
O financiamento não é alvo de questionamentos apenas agora.
Em 2021, a deputada federal Erika Kokay (PT-DF) acionou a Justiça questionando a legalidade da operação e alegando possível favorecimento na concessão do crédito.
Em julho de 2025, a 1ª Vara Cível de Brasília julgou a ação improcedente.
O juiz Leonardo Foster considerou que a renda apresentada por Flávio e Fernanda era suficiente para o financiamento e concluiu que a operação havia seguido as regras do banco.
A nova apuração da Polícia Federal ocorre em outro contexto. Os investigadores analisam agora informações obtidas durante a investigação sobre BRB e Banco Master e dados da auditoria independente contratada pela própria instituição financeira.


