A história do Banco Master de Daniel Vorcaro começa oficialmente em outubro de 2019, primeiro ano do governo Jair Bolsonaro. Foi naquele momento que o Banco Central, já presidido por Roberto Campos Neto, autorizou o empresário a assumir o controle do Banco Máxima, instituição que dois anos depois seria rebatizada como Banco Master.
O fim ocorreu seis anos depois, em novembro de 2025, durante o governo Lula. Com Gabriel Galípolo na presidência, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master alegando grave crise de liquidez, comprometimento de sua situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
Entre uma data e outra está a trajetória de um banco que cresceu rapidamente, captou bilhões no mercado e hoje está no centro de investigações sobre fraudes, corrupção, lavagem de dinheiro e possíveis relações ilegais entre o banqueiro e servidores do próprio Banco Central.
Documentos agora conhecidos mostram, porém, que a entrada de Vorcaro no controle de um banco não ocorreu sem resistência.
BC havia rejeitado Vorcaro
Vorcaro tentava assumir o controle do Banco Máxima desde o governo Michel Temer.
Em setembro de 2017, ele assinou contrato para adquirir o controle da instituição. A operação dependia obrigatoriamente da aprovação do Banco Central, e a declaração de propósito foi tornada pública pelo próprio BC naquele ano.
O processo se arrastou por quase dois anos.
Em 13 de fevereiro de 2019, já depois da eleição e posse de Bolsonaro, mas ainda sob a presidência de Ilan Goldfajn no Banco Central, a diretoria colegiada rejeitou por unanimidade a transferência do controle do Máxima para Vorcaro e seus sócios.
A justificativa foi contundente.
Segundo o documento oficial, os compradores não haviam demonstrado suficientemente a origem dos recursos utilizados na operação nem capacidade econômica e financeira para assumir o banco.
Pouco depois, Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro, assumiu a presidência do Banco Central.
Oito meses após a negativa, a situação mudou.
Em 14 de outubro de 2019, a diretoria colegiada do BC, agora sob Campos Neto, aprovou por unanimidade a transferência do controle do Banco Máxima para Daniel Vorcaro. A autorização foi publicada oficialmente dias depois.
Vorcaro havia apresentado novos documentos e informações financeiras que, desta vez, foram considerados suficientes para comprovar a origem dos recursos e sua capacidade econômica.
Era o começo da instituição financeira comandada pelo empresário que, em 2021, abandonaria definitivamente o nome Banco Máxima para se transformar em Banco Master.
Problemas já apareciam antes da autorização
O ponto mais delicado dessa cronologia surgiu com documentos revelados posteriormente.
O próprio Banco Central já havia levantado dúvidas, durante a primeira análise, sobre a origem do dinheiro utilizado por Vorcaro para comprar o Máxima. Técnicos suspeitavam inclusive da possibilidade de circularização de recursos, com dinheiro relacionado ao próprio banco sendo utilizado na operação de aquisição.
Mais recentemente, documentos analisados pela Polícia Federal e processos da Comissão de Valores Mobiliários passaram a levantar suspeitas ainda mais graves sobre a origem dos recursos apresentados naquele período.
Reportagem do UOL mostrou que, entre a rejeição de fevereiro e a aprovação de outubro de 2019, empresas ligadas à família Vorcaro receberam ao menos R$ 111 milhões em recursos que hoje são apontados em investigações como provenientes de desvios.
Parte dessas movimentações teria sido utilizada para demonstrar ao Banco Central a capacidade financeira necessária para assumir o Máxima.
A CVM trouxe outro elemento importante nesta semana.
O órgão condenou Daniel Vorcaro, seu pai, Henrique Vorcaro, o Banco Master e outros envolvidos por práticas fraudulentas realizadas entre 2018 e 2019, exatamente no período em que o grupo tentava conseguir autorização para assumir definitivamente o controle do Máxima.
Segundo a CVM, houve manipulação de ativos do fundo imobiliário Brazil Realty, com utilização de avaliações artificiais e operações destinadas a inflar o patrimônio dos ativos.
As multas aplicadas aos envolvidos somaram cerca de R$ 201 milhões.
As defesas contestaram as acusações e ainda podem recorrer.
A descoberta é relevante porque mostra que irregularidades hoje reconhecidas administrativamente pela CVM remontam ao período anterior e contemporâneo à própria autorização que colocou Vorcaro no controle da instituição financeira.
De Máxima a Master
Com o controle autorizado, o banco iniciou uma transformação acelerada.
Em 2021, o Banco Máxima passou oficialmente a se chamar Banco Master. Em seus próprios demonstrativos financeiros, a instituição informou que a mudança de nome fazia parte de um novo plano estratégico iniciado com a entrada da nova estrutura societária e administrativa.
O grupo expandiu operações de crédito, investimentos e captação.
Um dos pilares da expansão foi o Credcesta, produto de crédito consignado originado na Bahia e posteriormente levado a outros estados. O próprio Vorcaro chegou a apresentar o produto como um dos principais negócios do banco.
Outra característica do crescimento foi a oferta de CDBs com remunerações elevadas e cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), estratégia que permitiu ao Master ampliar fortemente sua captação junto a investidores.
A instituição cresceu rapidamente durante a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central.
Ao mesmo tempo, começaram a aparecer operações que posteriormente despertariam a atenção dos órgãos de fiscalização.
As investigações atuais apuram, entre outras suspeitas, utilização de carteiras de crédito sem lastro, circulação de recursos entre empresas e fundos ligados ao grupo, lavagem de dinheiro e pagamento de vantagens indevidas.
Isso não significa que todas as operações realizadas pelo Master desde 2019 fossem fraudulentas nem que a autorização concedida naquele ano tenha sido ilegal. Mas a cronologia revela que alguns dos personagens, estruturas financeiras e métodos hoje investigados já estavam presentes na formação do grupo.
Campos Neto e Galípolo serão ouvidos pela PF
A trajetória entre a autorização e a liquidação voltou ao centro das investigações.
A Polícia Federal decidiu intimar tanto Roberto Campos Neto, que presidia o Banco Central quando Vorcaro recebeu autorização para assumir o Máxima, quanto Gabriel Galípolo, que comandava a instituição quando o Master foi liquidado.
Os dois serão ouvidos como testemunhas.
A PF investiga suspeitas de que servidores do Banco Central tenham favorecido Vorcaro durante o período de fiscalização do Master. Dois deles, Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, foram afastados e são investigados por supostamente fornecer informações privilegiadas e atuar em favor do banqueiro. Ambos negam irregularidades.
A investigação ganhou novo peso depois da informação de que uma análise realizada em 2024 teria identificado problemas bilionários nas operações do Master ainda durante a gestão Campos Neto.
A apuração agora tenta reconstruir não apenas como o banco entrou em crise, mas o que os órgãos de fiscalização sabiam sobre suas operações ao longo dos anos e como reagiram.
Galípolo assume e Master acaba liquidado
Gabriel Galípolo, indicado por Lula, assumiu a presidência do Banco Central em janeiro de 2025.
Dez meses depois, em 18 de novembro de 2025, o BC decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, do Banco Master de Investimento, do Letsbank e da corretora do grupo.
Na nota oficial que anunciou a decisão, o Banco Central citou três razões centrais: grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
No mesmo dia, Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal durante a Operação Compliance Zero.
A dimensão do caso aumentaria nos meses seguintes.
As investigações passaram a apurar carteiras de crédito falsas, operações financeiras suspeitas, possíveis pagamentos de propina, lavagem de dinheiro e uma rede de relações políticas e empresariais construída pelo banqueiro.
O custo do colapso para o Fundo Garantidor de Créditos chegou à casa das dezenas de bilhões de reais.
A cronologia ajuda a colocar o caso Master em perspectiva.
2017: Vorcaro inicia formalmente a tentativa de assumir o Banco Máxima, durante o governo Michel Temer.
Fevereiro de 2019: já no governo Bolsonaro, mas com o Banco Central ainda sob a presidencia de Ilan Goldfajn, indicado de Temer, o BC rejeita por unanimidade a transferência do controle, apontando falta de comprovação da origem dos recursos e da capacidade econômico-financeira dos compradores.
Outubro de 2019: já sob a presidência de Roberto Campos Neto, indicado de Jair Bolsonaro, o Banco Central muda de posição e autoriza Vorcaro a assumir o controle do Máxima.
2021: Banco Máxima passa a se chamar Banco Master.
2019 a 2024: instituição cresce rapidamente, amplia captação e operações durante a gestão Campos Neto.
Janeiro de 2025: Gabriel Galípolo, indicado por Lula, assume a presidência do Banco Central.
18 de novembro de 2025: Banco Central decreta a liquidação do Master e cita graves violações às normas do sistema financeiro.
2026: investigações da PF, do Ministério Público e processos da CVM ampliam as suspeitas e reconstroem operações que remontam inclusive ao período anterior à autorização de 2019.
Agora, com Campos Neto e Galípolo chamados a depor, a Polícia Federal tenta esclarecer também o que aconteceu entre esses dois extremos da história.


