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Home Notícias Brasil

Master de Vorcaro nasceu no governo Bolsonaro e foi liquidado no governo Lula

Banco Central rejeitou entrada do empresário no controle do Banco Máxima em fevereiro de 2019, mas mudou de posição oito meses depois, já sob comando de Roberto Campos Neto; instituição seria transformada no Master e acabou liquidada na gestão de Gabriel Galípolo

Por Redação
10 de setembro de 2026 - 11:51
em Brasil
STF autoriza transferência de dono do Banco Master para presídio em SP

Divulgação | Banco Master

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A história do Banco Master de Daniel Vorcaro começa oficialmente em outubro de 2019, primeiro ano do governo Jair Bolsonaro. Foi naquele momento que o Banco Central, já presidido por Roberto Campos Neto, autorizou o empresário a assumir o controle do Banco Máxima, instituição que dois anos depois seria rebatizada como Banco Master.

O fim ocorreu seis anos depois, em novembro de 2025, durante o governo Lula. Com Gabriel Galípolo na presidência, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master alegando grave crise de liquidez, comprometimento de sua situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.

Entre uma data e outra está a trajetória de um banco que cresceu rapidamente, captou bilhões no mercado e hoje está no centro de investigações sobre fraudes, corrupção, lavagem de dinheiro e possíveis relações ilegais entre o banqueiro e servidores do próprio Banco Central.

Documentos agora conhecidos mostram, porém, que a entrada de Vorcaro no controle de um banco não ocorreu sem resistência.

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BC havia rejeitado Vorcaro

Vorcaro tentava assumir o controle do Banco Máxima desde o governo Michel Temer.

Em setembro de 2017, ele assinou contrato para adquirir o controle da instituição. A operação dependia obrigatoriamente da aprovação do Banco Central, e a declaração de propósito foi tornada pública pelo próprio BC naquele ano.

O processo se arrastou por quase dois anos.

Em 13 de fevereiro de 2019, já depois da eleição e posse de Bolsonaro, mas ainda sob a presidência de Ilan Goldfajn no Banco Central, a diretoria colegiada rejeitou por unanimidade a transferência do controle do Máxima para Vorcaro e seus sócios.

A justificativa foi contundente.

Segundo o documento oficial, os compradores não haviam demonstrado suficientemente a origem dos recursos utilizados na operação nem capacidade econômica e financeira para assumir o banco.

Pouco depois, Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro, assumiu a presidência do Banco Central.

Oito meses após a negativa, a situação mudou.

Em 14 de outubro de 2019, a diretoria colegiada do BC, agora sob Campos Neto, aprovou por unanimidade a transferência do controle do Banco Máxima para Daniel Vorcaro. A autorização foi publicada oficialmente dias depois.

Vorcaro havia apresentado novos documentos e informações financeiras que, desta vez, foram considerados suficientes para comprovar a origem dos recursos e sua capacidade econômica.

Era o começo da instituição financeira comandada pelo empresário que, em 2021, abandonaria definitivamente o nome Banco Máxima para se transformar em Banco Master.

Problemas já apareciam antes da autorização

O ponto mais delicado dessa cronologia surgiu com documentos revelados posteriormente.

O próprio Banco Central já havia levantado dúvidas, durante a primeira análise, sobre a origem do dinheiro utilizado por Vorcaro para comprar o Máxima. Técnicos suspeitavam inclusive da possibilidade de circularização de recursos, com dinheiro relacionado ao próprio banco sendo utilizado na operação de aquisição.

Mais recentemente, documentos analisados pela Polícia Federal e processos da Comissão de Valores Mobiliários passaram a levantar suspeitas ainda mais graves sobre a origem dos recursos apresentados naquele período.

Reportagem do UOL mostrou que, entre a rejeição de fevereiro e a aprovação de outubro de 2019, empresas ligadas à família Vorcaro receberam ao menos R$ 111 milhões em recursos que hoje são apontados em investigações como provenientes de desvios.

Parte dessas movimentações teria sido utilizada para demonstrar ao Banco Central a capacidade financeira necessária para assumir o Máxima.

A CVM trouxe outro elemento importante nesta semana.

O órgão condenou Daniel Vorcaro, seu pai, Henrique Vorcaro, o Banco Master e outros envolvidos por práticas fraudulentas realizadas entre 2018 e 2019, exatamente no período em que o grupo tentava conseguir autorização para assumir definitivamente o controle do Máxima.

Segundo a CVM, houve manipulação de ativos do fundo imobiliário Brazil Realty, com utilização de avaliações artificiais e operações destinadas a inflar o patrimônio dos ativos.

As multas aplicadas aos envolvidos somaram cerca de R$ 201 milhões.

As defesas contestaram as acusações e ainda podem recorrer.

A descoberta é relevante porque mostra que irregularidades hoje reconhecidas administrativamente pela CVM remontam ao período anterior e contemporâneo à própria autorização que colocou Vorcaro no controle da instituição financeira.

De Máxima a Master

Com o controle autorizado, o banco iniciou uma transformação acelerada.

Em 2021, o Banco Máxima passou oficialmente a se chamar Banco Master. Em seus próprios demonstrativos financeiros, a instituição informou que a mudança de nome fazia parte de um novo plano estratégico iniciado com a entrada da nova estrutura societária e administrativa.

O grupo expandiu operações de crédito, investimentos e captação.

Um dos pilares da expansão foi o Credcesta, produto de crédito consignado originado na Bahia e posteriormente levado a outros estados. O próprio Vorcaro chegou a apresentar o produto como um dos principais negócios do banco.

Outra característica do crescimento foi a oferta de CDBs com remunerações elevadas e cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), estratégia que permitiu ao Master ampliar fortemente sua captação junto a investidores.

A instituição cresceu rapidamente durante a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central.

Ao mesmo tempo, começaram a aparecer operações que posteriormente despertariam a atenção dos órgãos de fiscalização.

As investigações atuais apuram, entre outras suspeitas, utilização de carteiras de crédito sem lastro, circulação de recursos entre empresas e fundos ligados ao grupo, lavagem de dinheiro e pagamento de vantagens indevidas.

Isso não significa que todas as operações realizadas pelo Master desde 2019 fossem fraudulentas nem que a autorização concedida naquele ano tenha sido ilegal. Mas a cronologia revela que alguns dos personagens, estruturas financeiras e métodos hoje investigados já estavam presentes na formação do grupo.

Campos Neto e Galípolo serão ouvidos pela PF

A trajetória entre a autorização e a liquidação voltou ao centro das investigações.

A Polícia Federal decidiu intimar tanto Roberto Campos Neto, que presidia o Banco Central quando Vorcaro recebeu autorização para assumir o Máxima, quanto Gabriel Galípolo, que comandava a instituição quando o Master foi liquidado.

Os dois serão ouvidos como testemunhas.

A PF investiga suspeitas de que servidores do Banco Central tenham favorecido Vorcaro durante o período de fiscalização do Master. Dois deles, Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, foram afastados e são investigados por supostamente fornecer informações privilegiadas e atuar em favor do banqueiro. Ambos negam irregularidades.

A investigação ganhou novo peso depois da informação de que uma análise realizada em 2024 teria identificado problemas bilionários nas operações do Master ainda durante a gestão Campos Neto.

A apuração agora tenta reconstruir não apenas como o banco entrou em crise, mas o que os órgãos de fiscalização sabiam sobre suas operações ao longo dos anos e como reagiram.

Galípolo assume e Master acaba liquidado

Gabriel Galípolo, indicado por Lula, assumiu a presidência do Banco Central em janeiro de 2025.

Dez meses depois, em 18 de novembro de 2025, o BC decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, do Banco Master de Investimento, do Letsbank e da corretora do grupo.

Na nota oficial que anunciou a decisão, o Banco Central citou três razões centrais: grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.

No mesmo dia, Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal durante a Operação Compliance Zero.

A dimensão do caso aumentaria nos meses seguintes.

As investigações passaram a apurar carteiras de crédito falsas, operações financeiras suspeitas, possíveis pagamentos de propina, lavagem de dinheiro e uma rede de relações políticas e empresariais construída pelo banqueiro.

O custo do colapso para o Fundo Garantidor de Créditos chegou à casa das dezenas de bilhões de reais.

A cronologia ajuda a colocar o caso Master em perspectiva.

2017: Vorcaro inicia formalmente a tentativa de assumir o Banco Máxima, durante o governo Michel Temer.

Fevereiro de 2019: já no governo Bolsonaro, mas com o Banco Central ainda sob a presidencia de Ilan Goldfajn, indicado de Temer, o BC rejeita por unanimidade a transferência do controle, apontando falta de comprovação da origem dos recursos e da capacidade econômico-financeira dos compradores.

Outubro de 2019: já sob a presidência de Roberto Campos Neto, indicado de Jair Bolsonaro, o Banco Central muda de posição e autoriza Vorcaro a assumir o controle do Máxima.

2021: Banco Máxima passa a se chamar Banco Master.

2019 a 2024: instituição cresce rapidamente, amplia captação e operações durante a gestão Campos Neto.

Janeiro de 2025: Gabriel Galípolo, indicado por Lula, assume a presidência do Banco Central.

18 de novembro de 2025: Banco Central decreta a liquidação do Master e cita graves violações às normas do sistema financeiro.

2026: investigações da PF, do Ministério Público e processos da CVM ampliam as suspeitas e reconstroem operações que remontam inclusive ao período anterior à autorização de 2019.

Agora, com Campos Neto e Galípolo chamados a depor, a Polícia Federal tenta esclarecer também o que aconteceu entre esses dois extremos da história.

Tags: Banco CentralBanco MasterBanco MáximaCVMDaniel VorcaroGabriel GalípoloJair BolsonaroLulaOperação Compliance ZeroRoberto Campos Netosistema financeiro
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