Cinquenta anos após a morte de Juscelino Kubitschek, uma comissão ligada ao governo federal concluiu que o ex-presidente foi vítima da ditadura militar e não de um acidente de trânsito, como sustentou a versão oficial durante décadas.
A decisão foi tomada nesta sexta-feira (29) pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Por seis votos favoráveis e uma abstenção, o colegiado aprovou o relatório que reconhece a responsabilidade do regime militar na morte de JK.
Com a decisão, a comissão passará a trabalhar pela retificação da certidão de óbito do ex-presidente, adequando o documento às conclusões da investigação e às diretrizes previstas pela Resolução 601/2024 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Versão oficial é contestada
Juscelino Kubitschek morreu em 22 de agosto de 1976, aos 73 anos, quando viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro em um automóvel conduzido por seu motorista, Geraldo Ribeiro.
A versão oficial sustentada durante décadas apontava que o veículo teria perdido o controle após ser atingido por um ônibus na Via Dutra, provocando a colisão fatal.
O novo relatório rejeita essa narrativa.
Segundo a relatora do caso, Maria Cecília Adão, a principal premissa utilizada para justificar o acidente simplesmente não se confirmou após a análise dos documentos reunidos pela comissão.
“A batida de um ônibus na traseira do veículo, elemento central da versão oficial, jamais ocorreu”, concluiu o relatório.
A afirmação também aparece em investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal, que serviram de base para o trabalho apresentado ao colegiado.
Investigação reúne décadas de apurações
O relatório foi elaborado a partir de uma ampla análise documental que incluiu inquéritos, laudos periciais, depoimentos, documentos oficiais e investigações produzidas ao longo dos últimos anos.
Entre os materiais utilizados está uma investigação conduzida pelo Ministério Público Federal em 2019, além dos trabalhos realizados por diferentes comissões da verdade instaladas após o fim da ditadura militar.
Embora a Comissão Nacional da Verdade, criada pelo governo federal em 2012, tenha concluído que não havia provas suficientes para afirmar que o acidente foi provocado, outras investigações chegaram a conclusões diferentes.
As Comissões da Verdade de Minas Gerais, de São Paulo e do município de São Paulo defenderam a hipótese de que JK foi vítima de um atentado político.
JK era um dos principais adversários do regime
A nova conclusão reforça uma suspeita que acompanha a história política brasileira há décadas.
Cassado pela ditadura militar após o golpe de 1964, Juscelino Kubitschek continuava sendo uma das figuras políticas mais influentes do país e era visto por setores do regime como uma potencial ameaça à manutenção do poder militar.
Ao lado de líderes como João Goulart e Carlos Lacerda, JK integrou a chamada Frente Ampla, movimento que defendia a redemocratização do país e a realização de eleições livres.
A articulação foi proibida pelos militares em 1968.
Nos anos seguintes, diversas lideranças oposicionistas morreram em circunstâncias consideradas suspeitas. O próprio João Goulart morreu no exílio, na Argentina, em 1976, poucos meses após a morte de JK.
Família sempre contestou a versão do acidente
Desde a década de 1970, familiares e aliados políticos do ex-presidente questionavam a narrativa oficial sobre o acidente.
Ao longo dos anos, surgiram suspeitas de sabotagem, atentado e até participação de órgãos de repressão ligados à ditadura.
Nenhuma dessas hipóteses havia sido oficialmente reconhecida pelo Estado brasileiro até agora.
Com a aprovação do relatório pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, a tese de assassinato político passa a integrar formalmente o entendimento do órgão federal responsável pela reparação histórica de vítimas do regime militar.
Legado permanece vivo
Presidente da República entre 1956 e 1961, Juscelino Kubitschek é lembrado principalmente pela construção de Brasília e pelo Plano de Metas, que impulsionou a industrialização e a infraestrutura do país.
Seu governo ficou marcado pelo lema “cinquenta anos em cinco”, símbolo de um período de forte crescimento econômico e modernização nacional.
Passadas cinco décadas de sua morte, a decisão da comissão reabre um dos capítulos mais controversos da história política brasileira e recoloca em debate o papel da ditadura militar em episódios que permanecem cercados de controvérsia até os dias atuais.






