– Marineth, a embalagem de produto é um dos fundamentos da política de marketing usada com o objetivo de obter boa vendagem de mercadoria, como regra, no sistema capitalista. Mas, exceção à parte, por exemplo, não foi o que predominou no mercado da indústria fonográfica à época do Long Play – LP -, o popular disco de vinil. E, depois, no formato Compact Disc – CD – de armazenamento óptico digital para áudio, com avanço da tecnologia. A arte fotográfica era o que prevalecia, caracterizada no trabalho do Wilton Montenegro, autor de cerca de 100 capas de LPs.
– Athaliba, ocê tem razão sobre a questão de embalagem que reveste produto. E, sabe, é aquela coisa corriqueira que se ouve por aí de que se “o invólucro é bonitinho, o produto é bom”. Isso é arapuca para fisgar incautos que agem sem cautela. Mas, por favor, continua a descrever a arte visual que apregoa do Wilton Montenegro nas capas de discos, famosos LPs.
– Marineth, no universo de embalagens dos discos de vinil, com fotografias dele, tem o Luiz Gonzaga Jr., LPs Moleque Gonzaguinha, Alô, Alô Brasil, Gonzaguinha da Vida; Clara Nunes, LPs Clara Esperança, Clara Morena, Clara e Brasil Mestiço; Bezerra da Silva, LPs Eu não sou santo e Malandro rife; Paulinho da Viola, LP Miudinho; além dos artistas Ângela Maria, Paulo Diniz, Egberto Gismonti, Paulo Moura, Raphael Rabelo, Nelson Gonçalves, Nana Caymmi, Odair José, Cauby Peixoto com Ângela Maria e Paulo César Pinheiro, LP Poemas escolhidos.
– Athaliba, ocê sabe como o Wilton enveredou pela atividade da arte fotográfica?
– Marineth, neste 2026 faz 60 anos que ele começou a fotografar, lendo compêndios sobre fotografia e vendo muitas imagens. Aprendeu sozinho, na porrada, no bom sentido da vida. Além de quase uma centena de fotos pra capas de LPs, Wilton Montenegro tem acervo de mais de 100 mil fotos que serviram para a divulgação de artistas. De teatro e de dança negra contemporânea, umas 20/30 mil. Da área contemporânea, propriamente dita, cerca de 100 mil, também. No total, são cerca de 250 mil fotos, como se tivesse feito 10 fotos/dia, ao longo da vida profissional.
– Athaliba, qual é o artista que teve a 1ª foto na capa de LP feita por ele?
– Marineth, a foto dele que ilustrou a 1ª capa de disco foi do Luiz Gonzaga, pela gravadora RCA. Trata-se de uma imagem, em close, que mostra a passagem do tempo pela pele do rosto. A reação dos artistas sobre as fotos, conta ele, sempre foi de aprovação, pois aceitava sugestões, sem impor preferência. Preferia trabalhar com a luz natural, evitando estúdio. Diz que, certa vez, fotografou Clara Nunes, no estúdio do Milton Montenegro, xará dele. E que, a seguir, ao ar livre, a fotografou no Morro da Saúde, cercada de crianças. A foto foi capa de LP, escolhida por ela.
– Athaliba, alguma vez ele contou sobre a vaidade de artistas em produzir maquiagem para as sessões de fotografia?
– Marineth, o Wilton revelou que às vezes a maquiagem para sessão de fotos levava horas. Citou o caso da Ângela Maria, que demorou seis horas. A decisão sobre a escolha das fotos para a capa do LP era dele, junto com o artista e o diretor de arte. E, às vezes, até antes, como foi na maior parte das capas de Gonzaguinha. Foi, inclusive, em Minas para fotografá-lo pegando água de um riacho com as mãos, que virou capa interna do LP Coisa mais maior de grande pessoa.
– Athaliba, ele é carioca?
– Marineth, o Wilton é indígena, nascido em Manaus, capital do Amazonas, em fevereiro de 1947. Mas, mora no Rio de Janeiro, desde os 13 anos. Começou no teatro experimental de Maria Claro Machado e Mairiozinho Telles. Fez imagens dos expoentes da dança negra contemporânea Rubens Barbot, Rui Moreira e Elísio Pitta, por quase 30 anos. Em arte contemporânea, o trajeto dele tá na exposição e no livro Notas do observatório, como, também, em ensaios de imagens publicadas em livros de arte.
– Athaliba, ele já fez exposição fotográfica?
– Marineth, às vezes, ele, expõe, faz vídeos, curadorias e publica textos contracoloniais em revistas acadêmicas sobre fotografia, como arte e filosofia. Dirigiu junto com o cacique Urutau Guajajara, da Aldeia Marakaná, o longa-metragem Kawiré e Uratau, a fala boa. E, atualmente, tá escrevendo um livro sobre história e filosofia da Aldeia Marakaná: A imagem desconcertante ou os silêncios da narrativa. E prepara novo longa-metragem, dessa vez, sobre a história da Aldeia Marakaná, desde a invasão em 1500.
– Athaliba, o Wilton Montenegro tem o nome cravado na história da indústria fonográfica!






