13/03/2019 08h21

OS FILMES DA MINHA VIDA

Compartilhe

Por Ediel Ribeiro*

Rio - Eu tinha doze anos quando fui, com minha mãe, morar na Paraíba.

Perto da minha casa morava um senhor de aproximadamente 78 anos. Ele tinha o rosto desenhado por fortes marcas de expressão e um olho de vidro. Meus amigos morriam de medo dele.

Eu não! Gostava dele.

Ele era um homem alto, magro e muito culto. Tinha perdido o olho na guerra.

Eu ia pra casa dele e nós passávamos as tardes conversando, lendo – ele tinha muitos livros - vendo filmes em preto e branco e comendo os deliciosos biscoitos que a esposa dele – uma senhora muito branca e simpática - fazia.

Foi com seu Heitor que aprendi a gostar de cinema.

Divulgação
Divulgação

Quando voltei para o Rio, em 1973, passei a frequentar as matinês dos cinemas. Via de tudo: Hércules, Sansão, A Paixão de Cristo, O Gordo e o Magro, e os clássicos do Velho Oeste com as trilhas sonoras geniais de Ennio Morricone.

Algum tempo depois, conheci na Praia do Flamengo, uma garota chamada Wine. Muito louca. Fazia Faculdade de Enologia – estudo do vinho -, no Rio Grande do Sul.

Fomos tomar uns chopps no Lamas. Dalí ela me levou pra conhecer o Cine Paissandu, um famoso cinema que ficava ali perto, na Rua Senador Vergueiro.   

O Paissandu exibia, com o atraso da época - que chegava a ser de um a dois anos - os filmes de vanguarda, especialmente os filmes franceses que não costumavam ser exibidos em circuito comercial.

O Paissandu não era apenas uma pequena sala de projeção. Com a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), durante Ditadura Militar, os jovens se reuniam lá para discutir sobre cinema novo, cinema da nouvelle vague, e de vanguarda europeu, política, história, cultura, artes etc.

No Paissandu eu assisti "Le vieux fusil" (no Brasil, O Velho Fuzil) - e me encantei com a beleza de Romy Schneider. Um filme teuto-francês de 1975 dirigido por Robert Enrico. O filme é baseado no Massacre de Oradour-sur-Glane, uma aldeia francesa, dizimada pelos alemães, em 1944.

Vi, também, o seminal "Hiroshima Mon Amour", de Alain Resnais. um filme que tem uma complexidade que quebrava todos os dogmas e clichês que a gente tinha naquele momento, em relação à traição, à Segunda Guerra e o amor.

Outro filme que deslumbrou a minha geração e a geração Paissandu foi "Acossado", que o mestre da Nouvelle Vague Jean-Luc Godard realizou em 1960, com roteiro de Fraçois Truffaut.

Outros filmes que fizeram parte da minha adolescência e moldaram minha formação foram os filmes que apresentaram o moderno cinema brasileiro à minha geração como "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1963), de Glauber Rocha, "O Bandido da Luz Vermelha" (1968), de Rogério Sganzerla, "O Assalto ao Trem Pagador" (1962), de Roberto Farias e Luis Carlos Barreto e "Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia" (1978), de Hector Babenco e José Louzeiro.

O cinema feito sob a pressão e o calor dos "anos de chumbo" era mais rico – assim como a música.


* Ediel Ribeiro é jornalista e escritor

É permitida a reprodução desde que citada a fonte e não alterado o texto.

Comente esta notícia

SE VOCÊ NÃO TEM FACEBOOK, UTLIZE O FORMULÁRIO ABAIXO PARA COMENTAR.

Nenhum comentário até o momento.

Leia também